Uma análise bíblica da Assunção de Maria.

Virgem Maria
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Em 1950, o Papa Pio XII professou solenemente: «com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos S. Pedro e S. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial»[1].

As Igrejas ortodoxas já aceitavam esta doutrina (ainda que enfatizassem a morte preliminar da Virgem, isto é, sua Dormição). A maioria dos protestantes, no entanto, a negou, afirmando que faltava-lhe fundamento bíblico. Estes professavam literalmente que o corpo onde o Verbo se fez carne, havia se corroído nas entranhas da Terra. Mas, como será visto a seguir, é falsa a proposição de que o dogma da Assunção de Maria não tenha respaldo bíblico.

 

As Assunções na Bíblia

A doutrina da Assunção de Maria não deve ser confundida com a doutrina da Ascenção de Jesus. De acordo com o João 3:13, só Cristo subiu, por conta própria, aos Céus (isto é, ascendeu aos Céus), já que só Cristo tem autoridade para isso; os demais homens que foram assuntos ao Céu de corpo e alma foram levados, arrebatados, por Cristo ao Reino de Deus. Engana-se quem pensa que o privilégio da assunção corporal foi concedido tão somente à Santíssima Virgem. As Sagradas Escrituras narram Assunções Corporais de vários homens piedosos à glória celeste. Entre eles, podemos citar Henoc e Elias.

No Livro de Gênesis é narrada a primeira assunção corporal conhecida de uma pessoa à glória celestial. Tratava-se de Henoc, um servo de Deus. Segue o relato do Gênesis sobre o acontecimento: «Após o nascimento de Matusalém, Henoc andou com Deus durante trezentos anos, e gerou filhos e filhas.  A duração total da vida de Henoc foi de trezentos e sessenta e cinco anos. Henoc andou com Deus e desapareceu, porque Deus o levou.» (Gênesis 5:22-24). O autor da Epístola aos Hebreus também lembra que «Pela fé Henoc foi arrebatado, sem ter conhecido a morte: e não foi achado, porquanto Deus o arrebatou; mas a Escritura diz que, antes de ser arrebatado, ele tinha agradado a Deus» (Hebreus 11:5). Também, ainda no Antigo Testamento, Jesus, filho de Sirac, também lembra: «Henoc agradou a Deus e foi transportado ao paraíso, para excitar as nações à penitência.» (Eclesiástico 44:16).

Já no Segundo Livro dos Reis, o autor narra-nos a história da Assunção de Elias, outro servo amado de Deus. Ele afirma que Elias, sabendo que seria translado aos Céus, despediu-se de seu discípulo Eliseu, dando-lhe seu manto, e finalmente «o Senhor arrebatou Elias ao céu num turbilhão» (cf. 2 Reis 2:1).

São Tomás de Aquino, no entanto, lembra que estes santos foram levados por Deus ao «Céu aéreo» ou «Paraíso Terrestre» e não para o «Céu empíreo» ou «Paraíso Celestial». Este «Céu aéreo» é onde viviam Adão e Eva antes da queda e não para o «Céu empíreo» que foi aberto por Cristo quando Ele desceu a mansão dos mortos (cf. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Parte III, questão 49, artigo 5, objeção 2).

O Novo Testamento e a Tradição da Igreja incluíram nesta lista também a Serva Perfeitíssima de Deus, a mulher que agradou tanto a Deus que mereceu dar a luz à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: a Virgem Maria. No século IV, Santo Epifânio de Salamia já a comparava com estes ilustres homens do Antigo Testamento que haviam sido translados ao Céu: «Como os corpos dos santos, no entanto, ela foi mantida em honra de seu caráter e de sua compreensão. E se eu deveria falar ainda mais alguma coisa em seu louvor, ela é como Elias, que era virgem desde o ventre de sua mãe, permaneceu assim eternamente, foi assumido e não viu a morte.» (Santo Epifânio de Salamia, Panarion, 79,5,1-4).

 

Nos textos marianos

a) Apocalipse 12:1

1 Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.

Neste post específico não será discutido a questão da identidade da Mulher de Apocalipse 12 (já que este tema já foi tratado aqui). Daremos foco apenas ao que tange o dogma da Assunção. As explicações dadas neste estudo para os dois versículos estão presentes também no artigo que trata especificamente sobre a identidade da Mulher Apocalíptica. Para todos os efeitos, adotaremos aqui apenas a interpretação primária do texto que se refere claramente à Virgem Maria.

Voltemos aqui nossa atenção a algumas características atribuídas à Virgem no texto. A primeira é a ênfase que o texto dá à estrutura corporal da Mulher a apresentando com «pés», «cabeça», etc. Esta estrutura corporal que se apresenta «no Céu» é o primeiro sinal de sua Assunção corpórea. O texto ainda vai além e afirma que a Virgem está «revestida do sol». Ora, o ato de resplandecer a luz é, segundo Cristo, um sinal dos corpos após a ressurreição: «os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai » (Mateus 13:43). Paulo utiliza uma linguagem semelhante para dizer que na ressurreição, Deus «transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura» (Filipenses 3:20-21). Este «Sol» representa ao próprio Deus (cf. 1 Jo 1,5; Lc 1,78). O «resplandecer» dos corpos dos santos refere-se à «graça divina» derramada sobre eles em seu estado glorioso. Note que Maria não apenas «resplandece» (do grego ἐκλάμψουσιν) como o Sol, mas ela está «revestida» dele (do grego περιβεβλημένη). Isso se deve ao fato de que Maria, devido à sua Imaculada Conceição, possui a plenitude da graça divina (cf. Lc 1,28), sendo seu corpo glorioso muito superior ao nosso. Dessa forma, o autor apocalíptico nos revela o fato de que a Virgem já está ressuscitada de corpo e alma na glória celestial.

Percebe-se também que a Mulher está com «a lua debaixo dos seus pés». Ninguém pode explicar melhor tal característica senão o próprio Papa Bento XVI: «Esta mulher tem debaixo dos pés a lua, símbolo da morte e da mortalidade. Com efeito, Maria está plenamente associada à vitória de Jesus Cristo, seu Filho, sobre o pecado e sobre a morte; está livre de qualquer sombra de morte e totalmente repleta de vida. Pois a morte já não tem poder algum sobre Jesus ressuscitado (cf. Rm 6, 9), também por uma graça e um privilégio singulares de Deus Omnipotente, Maria deixou-a atrás de si, superou-a. E isto manifesta-se nos dois grandes mistérios da sua existência: no início, o facto de ter sido concebida sem pecado original, que é o mistério que hoje celebramos; e no fim, o facto de ter sido elevada ao Céu em corpo e alma, na glória de Deus. Mas também toda a sua vida terrena foi uma vitória sobre a morte, porque se dedicou totalmente ao serviço de Deus, na oblação total de si a Ele e ao próximo. Por isso, Maria é em si mesma um hino à vida: é a criatura na qual já se realizou a palavra de Cristo: «Vim para que tenham vida, e a tenham em abundância» (Jo 10, 10).»[2].

Em outras palavras, podemos afirmar que como a lua é um «símbolo da morte e da mortalidade», o fato de Maria estar com ela de baixo de seus pés representa seu triunfo sobre a morte, e o triunfo sobre a morte é um sinal dos ressuscitados: «Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura: A morte foi tragada pela vitória {Is 25,8}. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão {Os 13,14}?» (1 Cor 15:54-55). Novamente através de uma linguagem figurativa, João nos revela o estado já ressuscitado da Virgem.

b) Apocalipse 12:14

14 E foram dadas à mulher duas asas de grande águia, para que voasse para o deserto, ao seu lugar, onde é sustentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente. 

Este texto, repleto de imagens alegóricas, é o texto apocalíptico que trata sobre o destino final da Mulher. O início do capítulo mostra que, devido à sua maternidade divina, a Mulher foi perseguida pelo dragão durante toda a sua vida (cf. Ap 12,1-13). No entanto, percebe-se que no versículo 14 esta perseguição chega ao fim: a Mulher recebe de Deus «asas de águia» e «voa» para um enigmático «deserto». Novamente, entende-se por «deserto», um símbolo para um lugar seguro, protegido pela presença divina (cf. Ex 3,18; 4,27; 7,16). Diferentemente do deserto do versículo 6 (isto é, da fuga para o Egito), aqui a Mulher se vê definitivamente «fora do alcance da cabeça da Serpente». Trata-se de um lugar onde Satanás já não pode alcança-la.

Note que o fim da Mulher não é usual, mas ela recebe de Deus asas de águia e «voa» (πέτηται). No tocante às «asas de águia», encontra-se seu significado ainda no Antigo Testamento. Ele se refere ao cuidado que Deus tem em encaminhar-nos para junto Dele (cf. Ex 19,4), pois a águia é a ave que voa mais alto (cf. Ab 1,4; Pr 30,19), seu vôo simboliza a jornada para o Céu (cf. Pr 23,5).

Perceba que este versículo se refere ao destino final da Virgem (já que trata do fim da Batalha com o Dragão). As terminologias «voar», «encontrar o Senhor nos ares», «ir com ele para as núvens», «ser ajuntado pelos ventos» e até mesmo «asas de águia» são linguagens figurativas utilizadas pelos apóstolos para se referir ao arrebatamento corporal. Veja alguns exemplos: «Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.» (1 Tessalonicenses 4:17) e também «E enviará os seus anjos com grande som de trombeta, e ajuntarão os seus eleitos dos quatro ventos, de um extremo do céu ao outro.» (Mateus 24:31). No Livro dos Salmos, a linguagem do «vôo» está relacionada com o transporte de Deus por meio de querubins: «E montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento.» (Salmos 18:10). Este «vôo» que Apocalipse fala é, portanto, a constatação bíblica da Assunção de Maria aos céus (assim como ocorreu com Henoc e Elias em Hb 11,5 e 2 Rs 2,11, respectivamente).

O tempo em que a Mulher ficará neste retiro já não é mais contado em «dias» (ἡμέρας- hēmeras) como no vs. 6 (que se tratava da fuga ao Egito), mas em «tempos» (καιροὺς- kairous). Este é o tempo kairós, que significa «tempo oportuno» ou «tempo divino». Aqui, João evoca uma linguagem do Profeta Daniel: «os santos serão entregues ao seu poder durante um tempo, tempos e metade de um tempo. Mas realizar-se-á o julgamento e lhe será arrancado seu domínio, para destruí-lo e suprimi-lo definitivamente.» (Daniel 7:25-26). Trata-se, portanto, do tempo em que a Igreja peregrinará na Terra, sendo o sangue dos santos derramado. Quando este tempo acabar, ocorrerá o Juízo Final e a Mulher, finalmente retornará junto do «Senhor com milhares de seus santos» (Judas 1:14).

Neste versículo, portanto, João nos afirma na linguagem alegórica do «vôo da águia», o arrebatamento corporal da Santíssima Virgem ao Céu.

 

Nas tipologias marianas

a) Arca da Aliança

A Arca da Aliança no Antigo Testamento era um verdadeiro ícone do sagrado. Por conter a própria presença de Deus simbolizada por três tipos do Messias vindouro – o maná, os Dez Mandamentos e o bordão de Aarão -, ele devia ser mais puro e intocável pelo homem pecador (ver II Sam. 6: 1-9 Êxodo 25: 10ss, Números 4:15, Hebreus 9: 4).

No Novo Testamento, a nova e verdadeira Arca não seria um objeto inanimado, mas uma pessoa – a Mãe Santíssima. Quanto mais pura seria a nova e verdadeira Arca quando considerarmos a arca antiga como uma mera «sombra» em relação a ela (ver Hb 10: 1)? Esta imagem de Maria como a Arca da Aliança é um indicador de que Maria seria apropriadamente livre de todo contágio do pecado para que ela fosse um vaso digno para carregar Deus em seu ventre. E o mais importante, assim como a arca da Antiga Aliança era pura desde o momento em que foi construída com explícitas instruções divinas em Êxodo 25, Maria também seria mais pura a partir do momento de sua concepção. Deus, de certa forma, preparou seu próprio lugar de habitação tanto no Antigo quanto no Novo Testamento para portar a Palavra de Deus.

Se a Antiga Arca carregava, como lembra Hebreus 9:4, maná, a vara de Araão, e a Palavra de Deus em pedra, Maria, por sua vez, carrega em seu ventre o pão que desceu do Céu (Jo 6,51), o verdadeiro Sumo Sacerdote de Deus (Hebreus 5,1-10) e a Palavra de Deus em carne (cf. João 1,14): Trata-se da Arca da Nova Aliança.

Um paralelo pode ser facilmente percebido entre Maria e a Arca da Aliança a partir do primeiro capítulo do Evangelho de Lucas e o sexto capítulo do Segundo Livro de Samuel. De acordo com Samuel, a Arca da Aliança viajou para a casa de Obede, em Edom, ficando três meses com ele (cf. 2 Sm 6,11). Lá, diante da arca, Davi «saltou e dançou» (2 Sm 6,16). No início do capítulo, Davi chega a exclamar: «Como entrará a arca do Senhor em minha casa?» (cf. 2 Sm 6:9). Após sua estadia na casa de Obede, sua casa foi abençoada, e a arca retornou ao seu lugar (cf. 2 Sm 6:12). De acordo com o Evangelho de Lucas, Maria viajou para a casa de Isabel e Zacarias, onde passou três meses com eles (cf. Lc 1,56). Lá, ao ouvir a saudação de Maria, João Batista «saltou» no ventre de sua mãe (cf. Lc 1,41). Esta, então, exclamou em alta voz: «Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?» (Lucas 1:43). Após sua estadia na casa de Zacarias, sua casa é abençoada e Maria retorna à Nazaré (cf. Lc 1:56).

Lucas em seu Evangelho utiliza-se da tipologia bíblica para descrever a Virgem Maria como a Nova Arca da Aliança. E é neste mesmo sentido que João, no texto de Apocalipse 11:19, refere-se ao reaparecimento da arca: «Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva.». Ora, essa arca não pode ser a Antiga Arca da Aliança que Jeremias profetizou que jamais seria lembrada: «E sucederá que, quando vos multiplicardes e frutificardes na terra, naqueles dias, diz o Senhor, nunca mais se dirá: A arca da aliança do Senhor, nem lhes virá ao coração; nem dela se lembrarão, nem a visitarão; nem se fará outra.» (Jeremias 3:14-17). Mas é, como lembra o próprio João um versículo depois, trata-se de «uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. Estava grávida (…) E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro» (Apocalipse 12,1). João se refere à arca como uma Mulher, a quem atribui a maternidade messiânica. Dessa forma, concluímos de acordo com São Pascásio Radberto e toda a Tradição da Igreja que «O templo de Deus foi aberto e a Arca da Aliança foi vista (cf. Ap 11:19). Esta certamente não era a arca feita por Moisés, mas é a Bendita Virgem, cujo [título] já foi transferido para ela.» (São Pascásio Radberto, PL 96,250A).

Ao comentar esta passagem, ainda no século III, Santo Hipólito de Roma proclama Maria como: «Virgem arca construída de ouro puro, em seu interior pelo Verbo e em seu exterior pelo Espírito Santo» (Santo Hipólito, In Dan. VI: PG 10, 648). Da mesma forma, alguns séculos depois, proclama São Proclo, bispo de Constantinopla: «Graças a ela todas as mulheres são abençoadas. Não é possível que a mulher deva permanecer sob sua maldição; ao contrário, ela agora tem um motivo para superar até mesmo a glória dos anjos. Eva foi curada(…) Hoje, uma lista de mulheres é admirada(…) Isabel é chamada abençoada por ter concebido o precusor, que pulou de alegria em seu ventre, e por ter testemunhado a graça; Maria é venerada, pois ela se tornou a Mãe, a nuvem, a câmara nupcial, e a arca do Senhor.» (São Proclo de Constantinopla, Homilia 5, 3; PG 65:720 B). No mesmo século de São Proclo, ainda temos o testemunho de Crisipo, presbítero de Jerusalém: «A Arca verdadeiramente real, a Arca mais preciosa, foi a Theotokos sempre-Virgem; a Arca que recebeu o tesouro de toda santificação» (Crísipo de Jerusalém, In S. Mariam Deip., PO 19,338).

Sendo a Arca da Aliança um tipo da Santíssima Virgem, podemos atribuí-la os textos em que se diz: «Levantai-vos, Senhor, para vir ao vosso repouso, vós e a arca de vossa majestade.» (Salmos 132:8). Neste texto, podemos facilmente ver a subida de Cristo e da Virgem para seu «repouso» nos Céus (ainda que Jesus tenha se ascendido aos Céus e a sua Arca sido elevada por Ele). Este Salmo também foi reconhecido na própria Encíclica que dogmatizou a Assunção: «Muitas vezes os teólogos e oradores sagrados, seguindo os passos dos santos Padres, para explicarem a sua fé na assunção, serviram-se com certa liberdade de fatos e textos da Sagrada Escritura. E assim, para mencionar só alguns mais empregados, houve quem citasse a este propósito as palavras do Salmista: “Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca de vossa santificação” (Sl 131, 8); e na Arca da Aliança, feita de madeira incorruptível e colocada no templo de Deus, viam como que uma imagem do corpo puríssimo da virgem Maria, preservado da corrupção do sepulcro, e elevado a tamanha glória no céu.» (Papa Pio XII, Munificentissimus Deus, 26).

 

b) Cântico dos Cânticos

Uma figura bíblica de Maria é a enigmática Sulamita, a amada de Cântico dos Cânticos. Sulamita, em hebraico הַשּׁ֣וּלַמִּ֔ית (Schlomit), é um adjetivo que significa “aquela que possui a perfeição”. Alegoricamente, ela possui vários significados: pode representar o povo de Israel (que é a “amada” de Deus Pai, cf. Is 54,5), pode representar a Santa Igreja (que é a “amada” de Deus Filho, cf. Ef 5, 21-33), e, por fim, pode representar a Santíssima Virgem (que é a “amada” do Espírito Santo, cf. Lc 1,35).

Em Lucas 1:35, o Evangelista escreve: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra (ἐπισκιάσει).”. A terminologia ἐπισκιάσει  é uma terminologia nupcial. Os equivalentes semíticos do termo grego ἐπισκιάσει são o hebraico סָלַל (“salal”) e aramaico “Tallel”, do qual veio “tallith”. Ambos denotam relações conjugais: “tallith” era o manto que um homem erudito ou piedoso cobria sua mulher durante a noite de núpcias. Ele é utilizado, por exemplo, no livro de Rute: “Estende o teu manto sobre a tua serva, porque tens o direito de resgate.” (Rute 3:9). A mesma linguagem é encontrada em Ezequiel 16:8: “E, passando eu junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a aba do meu manto, e cobri a tua nudez; e dei-te juramento, e entrei em aliança contigo, diz o Senhor DEUS, e tu ficaste sendo minha.”.

O’Caroll comenta que nesta mesma passagem ainda há outro termo que indica o matrimônio espiritual entre a Virgem e o Espírito Santo: «Na literatura rabínica a vida de Rute é muitas vezes interpretada como prefigurando eventos messiânicos. Uma outra terminologia utilizada pelos rabinos para a união marital “colocar o seu poder” (reshuth) sobre a mulher ecoa em Lc 1,35, “o poder do Altíssimo te ofuscará”. Assim, a Anunciação tem um caráter nupcial, com insistência no cônjuge humano como virginal, isto é, exclusivamente dado a Deus.»[3].

Tudo isso indica obviamente não uma relação conjugal, mas uma íntima união marital entre a Virgem e o Espírito Santo. Nesse sentido, é válido aplicar alegoricamente a este belo amor, os textos de Cântico dos Cânticos.

São várias passagens de Cânticos dos Cânticos que se encaixam perfeitamente à figura da mãe do Messias. Cânticos fala por exemplo que «as donzelas proclamam-na bem-aventurada, rainhas e concubinas a louvam.» (Cânticos 6:9), o que é um símbolo da Virgem Santíssima, que, segundo Lucas, seria proclamada «bem-aventurada» perante todas as gerações (Lucas 1:48). É dito também que ela possui lábios de «leite e mel» (Ct 4:11), e Cristo seria nutrido com «manteiga e mel» (Is 7:15). Ela é a «Mais bela das mulheres» (Ct 1:8) e Maria é a «Bendita entre as mulheres» (Lc 1,42). Por fim, percebe-se uma íntima união entre o quadro de Cânticos 6:10 e Apocalipse 12:1: «Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?» e «E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.».

Entre os Padres da Igreja que utilizaram imagens do Cântico dos Cânticos para atribuí-las a Maria podemos citar: Ambrósio de Milão, Jerônimo de Estridão, Epifânio de Salmia, Apônio, Santo Isidoro, Germano de Constantinopla, João Damasceno[4]… Até que o primeiro que interpretou completamente o Cântico à Maria foi Rupert Deutz. Ambrósio, por exemplo, escreveu: «“Beija-me com os beijos de tua boca!” (1: 1) simboliza a graça do Espírito na Anunciação. “o teu nome é como um perfume derramado”(1: 3) é referido o conceito virginal e nascimento como uma virgem deu à luz bom odor, ou seja, o Filho de Deus»[5].

Ora, uma vez que a Sulamita representa a Virgem Maria podemos atribuí-la os seguintes textos: «Quem é esta que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado?» (Cânticos 8:5); «Que é aquilo que sobe do deserto como colunas de fumaça, exalando o perfume de mirra e de incenso, e de todos os aromas dos mercadores?» (Cânticos 3:6); «Vem comigo do Líbano, ó esposa, vem comigo do Líbano! Olha dos cumes do Amaná, do cimo de Sanir e do Hermon, das cavernas dos leões, dos esconderijos das panteras.» (Cânticos 4:8). Os textos, dizem que a Virgem, apoiada em Deus, sobe do deserto desta vida para os frutíferos campos do Paraíso.

 

c) O tipo da Igreja (Ecclesia Typus)

De acordo com o Concílio Vaticano II e com o atual Catecismo da Igreja Católica, Maria é o tipo perfeitíssimo da Igreja (em latim Ecclesia Typus)[6] [7]. Da mesma forma que no Antigo Testamento, a figura feminina da Filha de Sião representava todo o povo de Israel, no Novo, a figura da Virgem Santíssima representa toda a Igreja.

Santo Ambrósio nos explica: «Sim, ela (Maria) é noiva, mas virgem, porque é tipo da Igreja, que é imaculada, mas é esposa: virgem concebeu- nos por obra do Espírito, virgem deu-nos à luz sem dor» (Santo Ambrósio, In Ev. sec. Luc., II, 7, CCL 14, 33, 102-106). Ora, o paralelo é perfeito: a Igreja é virgem espiritualmente (cf. 2 Cor 11,2), mãe dos cristãos (cf. Gl 4,26) e totalmente imaculada (cf. Ef 5,27). Da mesma forma, Maria é virgem corporalmente (cf. Lc 1,34), mãe dos cristãos (cf. Jo 19, 26-27) e completamente sem mancha (cf. Gn 3,15).

O paralelo entre Maria e a Igreja é apostólico. Nos primeiros séculos, Clemente de Alexandria[8], Irineu de Lião[9] e Tertuliano de Cartago[10] o utilizaram. No século IV e V, vemos seu uso por parte principalmente de Ambrósio e Agostinho no Ocidente enquanto que no Oriente encontramos Santo Efrém chamando-a de «Igreja de Cristo»[11], e a proclamando-a «o símbolo da Igreja»[12].  Além dele, encontramos também no Oriente a obra Acta Archelai, escrita por Hegemônio que descreve Maria como «Virgem castíssima, a Igreja Imaculada»[13] e São Gregório de Nissa que ressaltava que aquilo que havia sucedido corporalmente em Maria acontecia espiritualmente em toda alma virgem[14]. Epifânio de Salamia, por sua vez, comparava a Igreja-Esposa com Maria-Esposa de Cristo (no sentido de que toda a alma é esposa de Cristo; assim ele deduzia isso do texto «dois em sua só carne», onde ele aplicava antes tudo isto a Cristo e a Maria, e depois a Cristo e à Igreja[15]). No século V, São Cirilo de Alexandria prega Maria em Éfeso como «sempre virgem Maria, isto é, a santa Igreja»[16].

Dessa forma, da mesma forma que a Igreja será elevada aos Céus no fim dos tempos (1 Ts 4:17), Maria foi elevada aos Céus no fim de sua vida, pois é o tipo e figura da Santa Igreja.

 

A Virgem morreu?

Desde o século IV, Santo Epifânio de Salamia lembra que não se sabe ao certo se a Virgem «morreu ou permaneceu imortal»[17]. Ainda assim, a Tradição da Igreja geralmente celebrava que a Virgem, antes de ser elevada aos Céus, haveria morrido de morte natural (ou «adormecido», eufemisticamente). A Encíclica Munificentissimus Deus manteve um silêncio no ponto de vista dogmático dessa questão, mas ainda assim, o Papa reforçou: «Não tiveram dificuldade em admitir que, à semelhança do seu unigênito Filho, também a excelsa Mãe de Deus morreu.» (nº 14).

E de fato, todas as histórias do Trânsito da Virgem (que, conforme o estudo de Gabrielle Roschini, remontam ao século II) reforçam a ideia de uma morte preliminar da Virgem. Alguns, no entanto, se perguntam: Mas se “o salário do pecado é a morte” (cf. Rm 6:23) como podemos dizer que a Virgem, sendo imaculada, morreu?

Paulo ensina que a morte é o “salário do pecado” pois foi devido ao pecado que a morte entrou no mundo. A princípio, Deus dotou Adão e Eva de dons, chamados «preternaturais», que os fazia gozar de inocência (isto é, isenção de concupiscência), impassibilidade (isto é, isenção de dor) e imortalidade corporal (isso é, isenção da morte). No entanto, com o pecado, o homem perdeu estes dons e não repassou para os seus descendentes.

Ao Novo Adão e à Nova Eva cabiam alguns destes dons (como a inocência, por exemplo), mas não todos. Isso se deve ao fato de que, para salvar a humanidade, era necessário um novo sacrifício. Este sacrifício exigiria que Nosso Senhor sofresse na carne e morresse para restaurar nosso estado de amizade para com Deus. Enquanto ele sofria na carne, Simeão lembrou à Maria que ela sofreria na alma (cf. Lc 2:35). Essa dor purificaria a humanidade de seus pecados e, portanto, não era vantajoso que eles fossem isentados dela. Dessa forma, mesmo sendo imaculados, Jesus e Maria estavam também sujeitos à dor e a morte, no intuito de restaurar nossa comunicação com Deus.

Assim, podemos celebrar a Festa da Dormição com as igrejas gregas sem necessariamente ferir o dogma da Imaculada Conceição.

 

Conclusão

Desde o Antigo Testamento, através de inúmeras figuras, foi revelado ao povo o dogma da assunção de Maria aos Céus. No Novo Testamento, o Apóstolo São João ilustrou tal evento no versículo 14 do capítulo 12 do livro do Apocalipse e lembrou no primeiro versículo do texto que Maria está nos céus com seu corpo reinando sob os 12 Apóstolos. A Bíblia é, portanto, cheia de versículos bíblicos a respeito do assunto. Como já dizia o Papa Bento XIV: apenas os ímpios e blasfemos podem supor que a mãe de Jesus, que portou Deus no próprio ventre, teria sua carne putrefata nas entranhas da Terra (cf. Bento XIV, De Festis B. V. M., I, VIII,18).

 

FONTES

[1] PAPA PIO XII, Munificentissimus Deus, 44.

[2] Discurso do Papa Bento XVI na Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Quinta-Feira, 8 de Dezembro de 2011.

[3] O’CAROLL, MICHAEL, Theotokos: A Theological Encyclopedia of the Blessed Virgin Mary, pp. 357-358).

[4]  Lista extraída da obra de Michael O’Carroll; Theotokos: A Theological Encyclopedia of the Blessed Virgin Mary, página 327.

[5] SANTO AMBRÓSIO DE MILÃO, De Virg. II, 65; PL 16,282C.

[6] CONCÍLIO VATICANO II, Const. dogm. Lumen Gentium, 63: AAS 57 (1965) 64.

[7] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, item 967.

[8] SÃO CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Paedagogus, I: 6.

[9] SANTO IRINEU DE LIÃO, Contra as Heresias, III,10; SC 34,164.

[10] TERTULIANO DE CARTAGO, Adv. Marc. 2,4,4-5; PL 2,289A.

[11] Efrém escreveu: “Ele caminhou sobre o mar (cf. Mt 14,25-31), apareceu na nuvem (Mt 17,5), ele liberou sua Igreja da circuncisão substituiu Josué, filho de Nun, por João, que era virgem e confiou a Maria, sua Igreja, como Moisés entregou o seu rebanho a Josué (cf. Dt 31: 7-8).” (Santo Efrém da Síria, Comentário no Diatessaron 12,5; SC 121,216).

[12] SANTO EFRÉM DA SÍRIA, Hinos na Crucificação, 4,17; CSCO 249,43.

[13] Cf. HEGEMÔNIO, Acta Archelai, 55,3; PG 10,1508.

[14] SÃO GREGÓRIO DE NISSA, De virg. 2: PG 46,324B.

[15] Cf. SANTO EPIFÂNIO DE SALAMIA, Panarion 78,19,3-6; GCS 3,469,31-470,14.

[16] Cf. SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA, Hom. Div. 4; PG 77,996B-C.

[17] SANTO EPIFÂNIO DE SALAMIA, Panarion 78, 11, PG 42, 715-716AC.

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