A Inquisição Protestante: Calvino e a Execução do Libertino Jaques Gruet

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Jaques Gruet foi um ateu e libertino que viveu em Genebra na Suiça. Tornou-se inimigo de Calvino assim como os outros libertinos Bolsec e Castellio. Foi preso e torturado por um mês inteiro de dia a noite, até suplicar para morrer e ser executado. Assim descreve o historiador Jean Dummont:

Da mesma forma, uma vez que o romanista Calvino estabelece seu poder totalitário sobre Genebra - cesaro-papismo em sua própria pessoa - se praticou ali a tortura como nunca, nem remotamente, tinha praticado e nunca praticou a Inquisição Católica, de acordo com os próprios historiadores protestantes como Henry Charles Lea. Veremos nos capítulos dedicados às inquisições: os executores dos Conselhos da Genebra de Calvino torturam por um mês inteiro, de manhã e à noite, de 28 de junho a 25 de julho de 1547, o pobre “libertino” Gruet , adversário pessoal de Calvino, que finalmente acabou suplicando: “Por favor, acaba com minha vida” (Jean Dummont – Iglesia Ante El Reto De La Historia. Pg 65)

O relato histórico completo que traduzimos para o português está presente na obra “História da Igreja Cristã” de vários volumes escritos pelo historiador protestante Philip Schaff, disponível para ser consultada neste site calvinista: <http://www.ccel.org/ccel/schaff/hcc8.iv.xiii.xii.html

 

§109. Os líderes dos Libertinos e sua punição

Por Philip Schaff

Historiador Protestante

 

1. Jacques Gruet foi a primeira vítima da disciplina de Calvino que sofreu a morte por sedição e blasfêmia. O caso dele é o mais famoso depois de Servet. Gruet era um libertino do pior tipo, tanto político como religiosamente, e teria sido condenado à morte em qualquer outro país na época. Ele era um patriota descendente de uma antiga e respeitável família, e anteriormente era advogado. Estava sob suspeita de ter tentado envenenar Viret em 1535. Escreveu versos contra Calvino e os refugiados que (como Audin diz) eram “mais malignos do que poéticos”. Ele era um frequentador regular de tabernas e oposto a qualquer regulamentação no Estado e Igreja, que interferissem na liberdade pessoal. Uma vez na igreja, ele olhou ousada e desafiadoramente para o rosto do pregador. Primeiro adotou a moda Bernese de usar calças com dobras na altura dos joelhos, e desafiou abertamente a disciplina do Consistório, que proibia. Calvino chamou-o de companheiro escorbuto, e relata desfavoravelmente sobre seu caráter moral e religioso, que os fatos plenamente justificam.

Em 27 de junho de 1547, poucos dias após a esposa de Perrin ter desafiado o Consistório, a seguinte difamação, escrita no dialeto da Sabóia, foi lida no púlpito de Calvino na Igreja de St. Pedro

Hipócrita Bruto (Gros panfar), tu e teus companheiros granharão pouco por suas dores. Se você não salvar a si mesmos fugindo, ninguém impedirá a sua destruição, e você amaldiçoará a hora em que você deixou sua zombaria. O Aviso já foi dado que o diabo e seus padres renegados haviam reunido aqui para arruinar tudo. Mas depois das pessoas sofrerem por muito tempo elas se vingaram. Tome cuidado para que você não seja servido como Mons. Verle de Fribourg. Nós não teremos tantos mestres. Grave bem o que eu digo.

O Conselho prendeu Jacques Gruet, que havia sido ouvido proferindo ameaças contra Calvino alguns dias antes, e tinha escrito versos e cartas obscenas e ímpias. Em sua casa foram encontrada uma cópia da obra de Calvino contra os Libertinos com uma nota marginal, Toutes folies, e vários papéis e cartas preenchidas com insultos a Calvino como um hipócrita arrogante, ambicioso e obstinado que desejava ser adorado, e roubar a honra do papa. Lá foram encontradas duas páginas em Latim escritas a mão por Gruet, nas quais as Escrituras eram ridicularizadas, Cristo blasfêmado, e a imortalidade da alma chamada de um sonho e fábula.

Gruet foi torturado todos os dias durante um mês, segundo a forma desumana daquela Época. Ele confessou que tinha feito a difamação, e que os documentos encontrados em sua casa lhe pertenciam; mas ele se recusou a nomear quaisquer cúmplices. Ele foi condenado por ofensas religiosas, morais e políticas; foi considerado culpado de expressar desprezo pela religião; de declarar que as leis, tanto humanas quanto divinas,  eram somente trabalho do capricho do homem; e que a prostituição não era criminosa quando ambas as partes consentiam; e de ameaçar o clero e o próprio Conselho.

Ele foi decapitado no dia 26 de julho de 1547. A execução, em vez de aterrorizar os Libertinos, os tornou mais furiosos do que nunca. Três dias depois, o Conselho foi informado que mais de vinte homens jovens tinham entrado em uma conspiração para lançar Calvino e seus colegas no Rhone. Ele não podia andar pelas ruas sem ser insultado e ameaçado.

Dois ou três anos depois da morte de Gruet, um de seus tratados foi descoberto cheio de blasfêmias horríveis contra Cristo, a Virgem Maria, os profetas e apóstolos, contra as Escrituras, e todas as religiões. Ele pretendia mostrar que os fundadores do judaísmo e do cristianismo eram criminosos, e que Cristo foi justamente crucificado. Alguns têm confundido este tratado com o livro “De tribus Impostoribus”, que data da época do imperador Frederico II. E coloca Moisés, Cristo e Maomé no nível de impostores religiosos.

O livro de Gruet foi, pelo conselho de Calvino, queimado publicamente pelo enforcador diante da casa de Gruet, em 22 de maio de 1550.

History of the Christian Church, Volume VIII: Modern Christianity. The Swiss Reformation.

 

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