São Justino pregava a "Sola Scriptura"? Parte I

Controvérsias
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INTRODUÇÃO
A apologética católica mais uma vez prestigia ao nosso público leitor com um artigo sobre um tema que sempre aparece pelas conversas formais e informais ao se verificar as bases da “Sola Scriptura” - o apelo à autoridade patrística para demonstrar a validade ou autenticidade de um argumento. Isso por si só, já revela a dissolução da “Sola Scriptura”, como única regra de fé e prática Recentemente, o administrador da página do Facebook Efatá! O "Escudo da Fé". num debatezinho, tirou da cartola uma citação de um antigo padre da Igreja: São Justino Mártir para seus fins particulares na tentativa de validar a “Sola Scriptura” pela autoridade de um Padre da Igreja. Passamos a refutá-lo!
 
 
 
 
 
1. RECOLHENDO AS EVIDÊNCIAS

Vejamos o que escreveu o objetor anticatólico! Numa absurda objeção(i) à exposição das fontes de autoridade para um dos debatedores enquanto católico, o autor larga uma citação descontextualizada de S. Justino Mártir: o objetivo seria mostrar uma contradição entre os católicos e esse primeiro filósofo cristão e Padre Apologista da Igreja Católica. Pois bem, nada menos difamador, falso e errado. Numa rápida passagem biográfica feita pelo site Veritatis Splendor(ii), podemos ler sobre nosso personagem:

"São Justino, Mártir, nasceu pagão, mas se converteu ao cristianismo depois de estudar filosofia. Ele foi um escritor prolífero e muitos na Igreja o consideravam o maior apologeta — defensor da fé — do segundo século. Ele foi degolado com seis de seus companheiros entre os anos de 163 e167.

Eis o excerto completo atribuído ao nosso São Justino:

Não temos algum mandamento em Cristo que nos obrigue a crer nas tradições humanas, mas somente naquelas que os bem-aventurados profetas promulgaram, e que Cristo mesmo ensinou, e eu tenho cuidado, de referir todas as coisas às escrituras e pedir a elas os meus argumentos e minhas demonstrações.” (Justino Mártir, em diálogo com Trifão)

Ao se verificar a procedência da citação para devida confirmação e averiguação do contexto, constamos a parcialidade e a habilidade fraudulenta dos apressados citadores: ao que tudo indica a citação foi forjada em alguns de seus termos. A primeira crítica é a referência incompleta para sabermos de onde foram tiradas as palavras. “Diálogo com Trifão” abarca cerca de 142 parágrafos e 101 capítulos na versão em língua portuguesa da Editora Paulus e que não foram referidos pelo objetor anticatólico, o que já levanta desconfiança. Só nos restou pesquisar a fidelidade dos termos e tentar observar o contexto.

Uma pequena alusão da referência ao que de fato, S. Justino escreveu pode ser localizada no capítulo 48 do Diálogo com Trifão - “Preexistência e divindade de Cristo”, na versão portuguesa da editora Paulus. Antes de a vermos, observemos uma versão protestante, a famosa coleção “Ante-Nicene Fathers”, volume I  — “The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus” em que consta:

Chapter XLVIII. — Before the divinity of Christ is proved, he [Trypho] demands that it be settled that He is Christ.

And Trypho said, “We have heard what you think of these matters. Resume the discourse where you left off, and bring it to an end. For some of it appears to me to be paradoxical, and wholly incapable of proof. For when you say that this Christ existed as God before the ages, then that He submitted to be born and become man, yet that He is not man of man, this [assertion] appears to me to be not merely paradoxical, but also foolish.”

And I replied to this, “I know that the statement does appear to be paradoxical, especially to those of your race, who are ever unwilling to understand or to perform the [requirements] of God, but [ready to perform] those of your teachers, as God Himself declares.2095 Now assuredly, Trypho,"I continued,"[the proof] that this man2096 is the Christ of God does not fail, though I be unable to prove that He existed formerly as Son of the Maker of all things, being God, and was born a man by the Virgin. But since I have certainly proved that this man is the Christ of God, whoever He be, even if I do not prove that He pre-existed, and submitted to be born a man of like passions with us, having a body, according to the Father’s will; in this last matter alone is it just to say that I have erred, and not to deny that He is the Christ, though it should appear that He was born man of men, and [nothing more] is proved [than this], that He has become Christ by election. For there are some, my friends,” I said, “of our race,2097 who admit that He is Christ, while holding Him to be man of men; with whom I do not agree, nor would I,2098 even though most of those who have [now] the same opinions as myself should say so; since we were enjoined by Christ Himself to put no faith in human doctrines,2099 but in those proclaimed by the blessed prophets and taught by Himself.(iii)

Em todo o volume não se acham as palavras da citação do objetor anticatólico. O que há é uma menção alusiva ao que “os bem-aventurados profetas promulgaram, e que Cristo mesmo ensinou”, apenas.

O texto em português pode ser lido na Coleção Patrística, Volume III, “Justino de Roma — I e II Apologias e Diálogo com Trifão”, São Paulo: Paulus, 1995, na 3ª edição de 2010, página 180, que transcrevemos seguramente, para o leitor:

Preexistência e divindade de Cristo

48. 1Trifão continuou:

— Já ouvimos falar o que pensas sobre isso. Retoma o teu discurso onde havias parado e termina-o. Com efeito, ele me parece cont
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