Provas conclusivas da intercessão dos santos em Santo Agostinho - Parte 1

Controvérsias
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INTRODUÇÃO

Santo Agostinho é uma grande testemunha do ensino católico sobre a intercessão dos santos que já partiram desta vida. À sua época, destacava-se na Igreja o culto dos santos mártires, bem como o costume de se recorrer à intercessão deles para benefício daqueles que ainda vivem neste mundo.

Como já demonstramos em outro artigo, Agostinho relata que os mártires são «nossos protetores» (Sermão 285), que «deveríamos ser recomentados» (Sermão 159,1) às orações dos mesmos porque «a justiça deles é perfeita» (Sermão 285).

Entretanto, ainda que estas citações falem claramente que a Igreja, à época de Santo Agostinho, recorria à intercessão dos santos mártires, alguns blogues e sites protestantes mesmo assim tentam negar o óbvio. Chegam a deturpar as citações acima, dizendo que 1) Agostinho não teria a invocação dos santos em vista, 2) que os mártires apenas intercederiam pelos que estão na terra sem que ninguém lhes pudesse dirigir algum pedido ou que 3) não teríamos que rezar pelos mártires, pelo fato dele afirmar que na Eucaristia não se ora pelos mártires, mas por outros defuntos (Sermão 285). Com relação ao último “contra-argumento”, o que na verdade Agostinho quis dizer é que os mártires não precisam de sufrágios  ou oblações, justamente porque «a justiça deles é perfeita», ao passo que os outros é que precisam ser oferecidos no altar, como Tertuliano testemunha que a Eucaristia é oferecida em favor dos defuntos «oblationes pro defunctis» (De Corona, 3), ou como o próprio Agostinho defende, ao dizer que «a Igreja inteira observa o costume de mencionar os nomes daqueles que morreram na comunhão do corpo e sangue de Cristo, ao oferecer o sacrifício eucarístico por eles» (Sermão 172,2), implicando consequentemente que a justiça dos defuntos comuns não era perfeita e que eles sim carecem das orações da Igreja.

Bom, voltemos ao assunto principal e respondamos às outras pífias tentativas de “contra argumentação” ao que querem dizer as citações dos dois sermões. Mesmo que as citações acima (Sermão 159,1; 185) testemunhem claramente o ato de se pedir a intercessão dos santos mártires com a aprovação do bispo de Hipona, trazemos aqui na primeira parte deste artigo novas citações onde ele confirma totalmente a prática, como também mostra com clareza cartesiana que é proveitoso recorrer ao patrocínio dos santos mártires. Na segunda parte serão respondidas algumas "objeções", em que tentam fazer com que Agostinho tivesse alguma bipolaridade e fosse autocontraditório com algumas citações fora de contexto.

 

SERMÃO 319: ESTEVÃO VIVO OU MORTO OPEROU MILAGRES, TODOS ELES PARA GLÓRIA DE CRISTO NO NOME DE CRISTO

 

“(...) 1. Não são necessárias muitas palavras minhas, porque vocês já ouviram o suficiente. Uma coisa eu exorto à vossa caridade para edificá-los: sabeis que Santo Estevão buscou a honra de Cristo; sabeis que o santo mártir foi testemunha de Cristo; sabeis que ele fez então milagres tão grandes no nome de Cristo. Para vossa salvação, sabeis que o Santo Estevão fez milagres em nome de Cristo, enquanto Cristo não fez milagre nenhum no nome de Estevão. (...) 6. Triunfou e foi coroado. Seu corpo estava escondido por muito tempo; mas, quando Deus quis, veio à luz, iluminou as terras, fez grandes milagres; estando morto, traz à vida os mortos, porque tampouco ele está morto. Assim, pois, recomendo à vossa caridade: que saibais que suas orações recebem muitos favores, mas não todos. Com efeito, vemos nos relatos que circulam como existem dificuldades para conseguir algum benefício, que mais tarde é obtido graças à fé perseverante de quem suplicou. Não se deixou de orar, e Deus o concedeu depois por meio de Estevão. Se conservaram as palavras de quem orava a Estevão e a resposta recebida: «A pessoa por quem oras não é digna, porque ela fez isto e aquilo». Mas ele insistiu tanto e implorou até que conseguisse. E, nos deu a entender que assim como antes de abandonar sua carne realizava milagres em nome de Cristo, suas orações fazem que se obtenham benefícios para quem ele sabe que devem ser concedidos.(...)

7. Mas ele ora como servo. Acompanhava João certo anjo. Tais anjos estão na companhia de Deus, e, se formos bons e chegarmos a merecê-lo plenamente, seremos iguais a eles. Seremos iguais aos anjos de Deus (Mt 22,30). Aquele anjo estava mostrando muitos prodígios a São João Evangelista: cheio de perturbação perante o anjo, adorou-o. Um homem adorou a um anjo, e o anjo disse ao homem: ‘Levanta-te, o que está fazendo? Adora a Deus, eu sou um servo como tu e teus irmãos’ (Ap 19,10). Se tão grande humildade manifestou ter o anjo, qual deve ser a de um mártir, como o é na realidade! Não cremos, pois, que Estevão é soberbo, pensando que tudo o quanto faz, o faz por seu poder. Por meio de nosso conservo, recebamos os benefícios de Deus, demos honra e glória ao Senhor! (...)

Hoje fomos um pouco mais pontuais do que o normal. Mas como as leituras foram longas e acaloradas, mudamos para o domingo as leituras dos relatos que contém os benefícios feitos por Deus por meio do mártir, uma história que deveríamos ter lido hoje.

Podemos, ao ler estes trechos do Sermão 319, 1.6-7, fazer as seguintes considerações:

  • Santo Agostinho ensina, em consonância com a doutrina católica, que o mártir «fez milagres tão grandes no nome de Cristo». Ou seja, não é por um poder isolado e próprio do mártir, independentemente de Cristo, mas ele o realiza por meio de Cristo. Como foi dito claramente, é o próprio mártir quem o realizou, só que por meio de Cristo. Não é Cristo que ora “em nome de Estevão”, mas o contrário.
  • Deus «concede por meio de Estevão» a realização dos pedidos feitos pelos cristãos ainda vivos.
  • Agostinho relata que Estevão, «ora como servo», e isto remete justamente à distinção católica de dulia e latria. Pedimos e honramos aos santos considerando-os servos, num contexto de dulia.
  • Ele também afirma que mudaram para outro dia a leitura de mais relatos de «benefícios feitos por Deus por meio do mártir», uma vez que isto era tão importante para ele, como ele indica ao falar que «deveriam» ter lido tais relatos naquele mesmo dia.

 

SERMÃO 320: A VISÃO DE UM HOMEM CURADO PELAS ORAÇÕES DE SANTO ESTEVÃO É MELHOR DO QUE QUALQUER DESCRIÇÃO DA CURA

 

Estamos acostumados a ouvir as histórias que contém os milagres realizados por Deus graças às orações do bem-aventurado mártir Estevão. O relato que este homem apresenta é ele mesmo: apenas olhem para ele; em vez de escrever, seu rosto o mostra. Aqueles que se lembram de ver ele com dor, agora veem com alegria o que tem diante dos olhos, para maior honra de Deus nosso Senhor e para que se grave em vossa memória o que está escrito neste relato particular. Peço licença, senão prolongo este sermão por mais tempo, pois conhecem o meu cansaço. As orações de Santo Estevão me possibilitaram fazer ontem tantas coisas em jejum, sem desmaiar (...)

Neste outro sermão duas coisas tornam-se manifestas e nos saltam aos olhos:

  • Santo Agostinho afirma que todos estão «acostumados» a ouvir histórias de milagres realizados com o consórcio de Santo Estevão.
  • O próprio bispo de Hipona afirmou que a intercessão do mártir o ajudou a fazer tantas coisas em jejum, sem que desmaiasse, no dia anterior ao sermão.

Isto mostra que ele não só divulgava, mas aprovava e se utilizava do recurso à intercessão dos santos.

 

SERMÃO 322: APRESENTAÇÃO DE UM RECONHECIMENTO OFICIAL DE UMA CURA MILAGROSA

 

Neste sermão, Agostinho lê, com agrado, o relato de um homem que fora curado pela intercessão do mártir Estevão que ele havia prometido nos sermões anteriores. Em seu contexto, o relato lido fala de dez filhos que foram amaldiçoados pela sua mãe. Um dos filhos relata o seguinte:

(...) Dos dez irmãos que somos, o primeiro mereceu recobrar a saúde na memória do glorioso mártir Lourenço, que recentemente havia sido levantada em Ravena, como temos ouvido. Eu, o sexto dos irmãos, acompanhado por minha irmã que me sucede na idade, cheio de desejo de recuperar a saúde, comecei a viajar e me apresentava em toda cidade ou região que houvesse lugares sagrados, nos quais Deus realizava milagres. Para não mencionar outros lugares célebres pelos seus santos, na minha peregrinação cheguei a Ancona, cidade da Itália, onde Deus realiza muitos milagres por mediação do gloriosíssimo mártir Estevão. Mas não pude alcançar a cura, precisamente porque a Divina Providência me reservou para alcançá-la aqui. Também não passei longe da cidade africana de Uzala, onde é pregado que o bem-aventurado mártir Estevão faz maravilhas com frequência. No entanto, há três meses, isto é, no mesmo dia das calendas de janeiro, eu e minha irmã que me acompanhava e que sofria do mesmo mal fomos alertados por uma visão que não deixava dúvidas: uma pessoa com rosto brilhante e venerável pela brancura de seus cabelos me disse que, no tempo de três meses, estaria na posse da cura desejada. No entanto, à minha irmã se apareceu na visão sua imagem, tal como vemos agora, de modo que nos mostrou que deveríamos chegar a este lugar. Desde então, quando íamos em viagem a outras cidades, também eu via a sua beatitude do mesmo modo como agora contemplo. Avisados, então, claramente pela autoridade divina, chegamos a esta cidade há cerca de duas semanas. As testemunhas do meu sofrimento são vossos olhos e a minha infeliz irmã, que,  para o conhecimento de todos, traz a prova do nosso mal em comum. Desta forma, todos podem ver nela o que eu era e reconhecer o quanto Deus operou em mim pelo seu Santo Espírito. Com grandes lágrimas, orei diariamente no lugar da memória do glorioso mártir Estevão. Mas no domingo de Páscoa, como puderam ver os que estavam presentes, enquanto orava com grandes lágrimas em frente ao portão, caí de repente. Perdi a consciência e não sabia onde estava. Pouco tempo depois, me levantei, e já não encontrava mais aquele tumor no meu corpo. Para não ser ingrato a tão grande benção, ofereci este relato escrito, no qual expus tudo o que não sabiam sobre nossas desgraças, para que ao ter conhecimento sobre minha cura perfeita, vos digneis de orar pela minha irmã e dar graças a Deus por mim”.

O relato apenas confirma tudo aquilo que dissemos anteriormente: é fato irrefutável que o santo doutor se prestou a promover e divulgar a prática e eficiência de se orar aos santos mártires. Ao ler o testemunho, outro ponto torna-se manifesto:

  • Uma vez que «muitos» milagres eram realizados com «frequência» nos «lugares sagrados», é possível concluir que a prática de se pedir a intercessão dos santos, ao menos na época de Agostinho, estendia-se a muitos lugares como também se realizava com grande frequência.

 

SERMÃO 323: SERMÃO INTERROMPIDO POR UMA CURA MILAGROSA

 

Este sermão tem como contexto os comentários que o santo bispo traça acerca do milagre exposto nos sermões anteriores. Ele diz:

"(...) 2. Esforcemo-nos, irmãos, para dar graças ao Senhor nosso Deus, por aquele que foi curado, e derramemos nossas súplicas para aquela que ainda é presa do mal. Bendigamos ao Senhor, que nos fez dignos de sermos testemunhas presenciais. Quem sou eu para aparecer, sem saber, a eles? Eles vieram a mim sem eu saber, e desta forma vinham a esta cidade. Quem sou eu? Sou um homem entre tantos, nem sequer dos grandes. E, em verdade, ouça com caridade, estou cheio de admiração e me alegro com o que nos foi dado, pois este homem não pode ser curado sequer em Ancona. Melhor dizendo, poderia, mas não foi feito em atenção a nós... São muitos os que sabem quantos milagres são realizados nesta cidade pelo bem-aventurado mártir Estevão. Ouçam agora algo que os encherá de admiração: sua memória estava ali desde muito tempo, e ali permanece. Talvez você me diga: «Se seu corpo não houvesse aparecido, a que se devia aquela memória?». O motivo nos escapa. Mas não escapará de sua caridade o que a tradição nos disse. No momento da lapidação de Santo Estevão estavam presentes também algumas pessoas inocentes, especialmente aquelas que haviam crido em Cristo. É dito que uma pedra o atingiu no cotovelo e de rebote foi parar perto de um homem piedoso. Ele pegou e guardou-a. Como era marinheiro, sua profissão o trouxe até o litoral de Ancona e uma revelação o indicou que era ali onde ele deveria colocar aquela pedra. Ele obedeceu a revelação e fez como lhe tinha sido ordenado. A partir de então começou a existir ali a memória de Santo Estevão e se correu o rumor de que era seu braço que ali estava, ignorando os homens o que realmente tinha acontecido.(...)"

Pouco depois, durante este sermão em que Santo Agostinho relata «quantos milagres são realizados pelo mártir Estevão» - «multi quanta miracula per beatissimum martyrem Stephanum» - acontece um novo milagre por mediação de Santo Estevão, e então este sermão é interrompido para ser continuado no seguinte:

 

SERMÃO 324: CONTINUAÇÃO DO SERMÃO ANTERIOR, INTERROMPIDO POR UMA CURA MILAGROSA

 

"(...) Certa mulher perdeu em seu regaço seu filho enfermo, catecúmeno, de peito ainda. Quando ela percebeu que morrera e estava irremediavelmente perdido, ela começou a chorar por ele, mais como cristã do que como mãe. Não desejava a seu filho outra vida senão a do mundo futuro, e chorava porque ele foi levado e perdido... Cheia de confiança, tomou em suas mãos o menino morto e correu à memória do bem-aventurado mártir Estevão, e começou a pedir de volta a vida de seu filho com estas palavras: «Santo Mártir, você vê que não tenho nenhum consolo, pois não posso dizer que meu filho tenha precedido, pois você sabe que ele pereceu. Você sabe bem porque choro. Devolva-me meu filho para tê-lo na presença dAquele que coroou a ti.»  Suplicando estas e outras coisas parecidas, de certo modo mais exigindo do que pedindo, com suas lágrimas, como disse, o filho reviveu.(...)"

As palavras do texto latino merecem ser expostas para que não haja dúvidas de que o milagre ocorreu devido à súplica feita a Santo Estevão: «...Sancte martyr, vides nullum mihi remansisse solatium. Non enim possum dicere filium praecessisse, quem nosti perisse: tu enim vides quare plangam.  Redde filium meum, ut habeam eum ante conspectum coronatoris tui...» 

A mãe chorava a morte de seu filho que era ainda catecúmeno. E todos foram surpreendidos com a recuperação da vida do menino, realizado por meio de Santo Estevão, para que pudesse receber os sacramentos de iniciação. Santo Agostinho faz questão de reproduzir fielmente as palavras daquela que fora agraciada. Logo, é concluível que é puro devaneio querer afirmar que o bispo, ao reproduzir em suas próprias homilias e sermões tantos testemunhos de milagres feitos por intermédio dos mártires a pessoas que recorreram a eles, não promovesse ou não concordasse com tal atitude.

O bispo de Hipona nos testemunha seu verdadeiro e inquestionável apreço por tal costume de se pedir a intercessão dos santos mártires: insiste em deixar por escrito para a posteridade os milagres feitos pelos santos. Cremos que estes sermões expostos acima, bem como os pontos que levantamos contidos nos sermões, não deixam dúvida alguma de que Agostinho ensinou, promoveu e se beneficiou das orações dos mártires. Como não nos déssemos por satisfeitos com esta verdade manifestada às claras e à vista de todos que podem ler tais sermões, trazemos algumas considerações de historiadores e estudiosos do pensamento de Santo Agostinho e da Igreja antiga:

 

O QUE ALGUNS ESTUDIOSOS DIZEM SOBRE O TEMA

 

A renomada obra “Agostinho através dos tempos: uma Enciclopédia”, editada por Allan Fitzgerald (O.S.A) e prefaciada por Jeroslav Pelikan, fala o seguinte sobre a intercessão dos mártires, em Agostinho:

(...) As mortes dos mártires são consagradas a Deus; eles glorificam a Deus e honram a Ele (ep. 140.10.27; s. 319.1). Suas mortes aumentam o número de fieis (en. Ps. 90.1.8) e intercedem a Deus com suas orações (qu. Vet. 2.108). Como amigos de Cristo (s. 332.1; cf. 335H.2), os mártires intercedem pelos outros (en. Ps. 85.24). Esse compromisso com a Igreja distingue os verdadeiros mártires com os falsos fanáticos. (...)” (p. 538)

Para o doutor de Hipona, como pressuposto da atuação dos mártires como intercessores estava sua amizade com Cristo. O livro diz ainda:

(...) Como pastor de uma próspera congregação, Agostinho viu-se lidando com os excessos no culto dos mártires e em diversas vezes em seus sermões recomendou moderação. No entanto, as mesmas fontes também testemunham o fato de que muitas vezes observou os dias dos santos pregando sermões em sua homenagem. Os mártires ouvem as orações de seus devotos, e os poderes curativos dos santos são procurados através da veneração de suas relíquias. (...)” (p. 758).

Os estudiosos, como podemos ver, também confirmam este ensino de Santo Agostinho: os mártires ouvem as orações daqueles que se devotam a eles e os procuram, através de suas relíquias. E, para ninguém sair falando que Agostinho teria sofrido alguma influência de paganismo ou que ele teria mudado de posição, para uma posição supostamente “errada”, os estudiosos comentam que Agostinho moderava os excessos do culto dos mártires, regulando ele: a isto vemos em seus sermões, quando ele com maestria católica regula o culto dos santos mártires (cf. Sermão 159; 285; 313A; 318; 325; etc.).

Vejamos o que diz também a “Nova Enciclopédia Schaff-Herzog de Conhecimento Religioso”, volume X, página 176:

(...) Não só seus ossos, mas seus túmulos e seus santuários são instrumentos de benção; eles aparecem para aqueles que os invocam ou são representados por anjos que assumem sua forma; e, ainda que Agostinho emita uma advertência contra a adoração dos mortos ao argumentar que os santos são venerados como modelos e não adorados como deuses, para ele, também, as orações para os santos nos sacrifícios eucarísticos se transformam em um apelo dirigido aos santos por sua intercessão. (...)

Esta obra produzida por autores protestantes admite que para Agostinho era possível dirigir apelos aos santos pedindo a intercessão deles.

Adolf Harnack, renomado patrologista e historiador protestante, em sua “História do Dogma”, volume IV, página 264, diz:

(...) Em referência aos santos, Cirilo diz em sua quinta catequese mistagógica (c. 9): ‘Depois fazemos menção dos que adormeceram, primeiro dos patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, para que Deus, por suas preces e intercessão, aceite nossa súplica.’. Assim ensina também Agostinho. Este círculo [de santos] foi aumentado após o século V pela adição de bispos, monges e monjas. O poder dos santos para interceder foi sempre a razão das honras e invocações (τιμὴ καὶ ἐπίκλησις) feitas a eles. As antigas capelas dos mártires tornaram-se grandes igrejas. (...)” (colchetes meus)

Harnack, contrariando alguns protestantes que mais querem reafirmar convicções pessoais em Agostinho, admite que existiu para o santo doutor a prática de se pedir a intercessão dos santos. É o que podemos conferir neste outro trecho da referida obra:

(...) Contra Vigilâncio, Jerônimo manteve (Vigil. 6) um ‘ubique esse’ dos santos, Apóstolos e mártires, já que se encontravam onde Cristo se encontrava. Agostinho também, se referindo a ideias semelhantes, mostrou que os santos continuaram a ter o poder e a vontade de participar nas coisas terrenas. (...)” (p. 265)

 

CONCLUSÕES

 

Nem Harnack que se posicionava contra a prática católica em seus escritos, nem algum outro estudioso ou obra acima mencionados fazem a pseudo-distinção de que o ato de pedir a intercessão dos santos seria diferente dos santos intercederem pelos vivos por conta própria. É nonsense tirar tal tipo de conclusão a partir dos escritos de Santo Agostinho. Estudiosos tratam como uma só realidade: para a antiguidade à época de Agostinho, tanto se recorria aos santos pedindo a intercessão deles, como também era ensinado que os próprios santos do céu fazem questão de interceder pela Igreja militante.

Estes são apenas alguns dos diversos estudos imparciais do tema e foram expostos aqui apenas para demonstração. Está claro que, a partir dos testemunhos primários do próprio doutor de Hipona como também dos estudiosos (inclusive protestantes), podemos concluir sem sombra de dúvida e certamente, que Agostinho testemunhou, utilizou, promoveu e quis deixar registrado para toda a posteridade a prática de se recorrer aos santos já falecidos em benefício da Igreja que ainda vive no mundo.

 

PARA CITAR


OLIVEIRA, L.H. Provas conclusivas da intercessão dos santos em Santo Agostinho. Disponível em: <http://apologistascatolicos.com.br/index.php/patristica/controversias/994-provas-conclusivas-da-intercessao-dos-santos-em-santo-agostinho> Desde: 27/09/2017.

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