IRINEU DE LIÃO: A VIRGEM QUE NOS REGENERA (Adv. Haer. IV, 33, 4, 11)

Estudos Patrísticos
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Todos os que escreveram sobre «Maria, mãe dos homens» ficaram contentes por terem encontrado doutrina a respeito dela em Santo Ireneu. Mas todos eles, tanto quanto eu me dei conta, se omitiram de assinalar as duas passagens onde o bispo de Lião enuncia da maneira mais formal o pensamento que lhe é mais caro[1]. A mãe de Cristo é aí apresentada em termos próprios como a Virgem que «regenera os homens». Será que esta afirmação, ainda para mais duas vezes repetida, parece ultrapassar as marcas? Para os autores destes últimos tempos, é pouco provável. A causa da omissão está sobretudo, parece, numa nota de Massuet, em que ele se convenceu de que apenas se referia à Igreja aquilo que era dito, de facto, da Virgem Maria. A sua interpretação, em todo o caso, parece inadmissível.

 As duas passagens estão no Livro IV do Adversus Haereses, capítulo 33, parágrafos 4 e 11. No Migne, col. 1074 C e 1080 B. A nota de Massuet, nº 29 está localizada no parágrafo 4 no Migne, col 1074 C-D. 

 A primeira destas passagens apresenta-se no decorrer de uma argumentação contra os Ebionitas, que só viam em Cristo um homem comum, recusando-se a reconhecê-lo como Deus. Como podiam eles ser salvos, pergunta santo Ireneu, se o autor da sua salvação não é o próprio Deus? Como é que o homem – prossegue ele – poderá chegar até Deus, se Deus não veio até ao homem? Como é que poderá ele escapar à geração que leva à morte, se não toma parte da geração nova que leva à vida? E é este último pensamento que Santo Ireneu exprime nestes termos: 

 «Quemadomodum [id est, quomodo] autem relinquet [homo] mortis generationem, si non in novam [transierit] generationem mire et inopinate a Deo, in signum autem salutis datam, quae est ex virgine, per fidem, regenerationem?».

 [N.T.: Porém, de que maneira [isto é, como] deixará [o homem] a geração da morte, se não passar para a nova geração, dada maravilhosa e inesperadamente por Deus como sinal de salvação: uma regeneração que procede da virgem por meio da fé?]

 A frase parece complicada. Mas Massuet manteve-lhe, felizmente, a construção regular, contra Grabe. Uma só palavra aí está subentendida, que é fácil de suprir: é a palavra transierit [passar] ou um sinónimo, subentendida de forma semelhante na segunda parte da frase precedente e paralela, como estando já expressa na sua primeira parte[2]. O sentido literal não é, portanto, duvidoso: quando somos gerados na morte, é preciso nascer de novo para ter parte na vida. E é esta geração nova que, pela fé, é a «generatio ex virgine» [geração que procede da virgem]. Ora o acrescento final não é senão um aposto ao que precede, e Massuet construiu muito bem: «… si non transeat in novam generationem mire et inopinate a Deo, in signum autem salutis datam, eam videlicet regenerationem quae est ex virgine per fidem» [N.T.: … se não passar para a nova geração, dada por Deus maravilhosa e inesperadamente, em sinal de salvação, isto é, aquela regeneração que procede da virgem por meio da fé]. A identidade da «generatio nova» [nova geração] e da «regeneratio ex virgine» [regeneração procedente da virgem] é assim reconhecida[3] e é preciso partir daí para determinar o sentido real das palavras «ex virgine» [procedente da virgem]. 

 A segunda passagem é mais curta e mais nítida. A propósito da geração virginal do Emanuel, Santo Ireneu insere este parêntesis: 

 «Purus pure puram aperiens vulvam, eam quae regenerant homines in Deum, quam ipse puram fecit».

[N.T.: Aquele que é puro abre de maneira pura o puro seio que regenera os homens para Deus e que Ele fez puro].

 O sentido gramatical aqui é límpido. Trata-se do nascimento do Verbo Incarnado, anunciado pelos Profetas e pelo qual «o Filho de Deus se tornou o filho do homem e fez-se o que nós somos». Aquela de quem ele nasceu e que regenera os homens é, portanto, a sua mãe: temos aí a afirmação mais expressiva talvez que se encontra nos três primeiros séculos da virginal maternidade de Maria. 

 Para Massuet é, no entanto, a Igreja – como já o dissemos – que em cada uma destas frases é designada como a virgem que nos regenera.

 Não deixa de ser verdade que esta atribuição à Igreja da geração nova que, pela fé, faz passar os homens da morte à vida, não teria em si nada de anormal. Santo Ireneu poderia muito bem ter querido exprimir esta ideia. Na carta dos mártires de Lião, a expressão τῇ παρθένῳ μητρί [da virgem mãe] encontra-se aplicada à Igreja[4] e ele mesmo (III, 24, 1: M. 966 C) fala da Igreja como a mãe que alimenta os homens com o leite da verdade[5].

 Mas agora trata-se destas duas passagens e do que Ireneu quis aqui dizer. Ora parece evidente que ele não falou da Igreja, mas unicamente de Maria.

 Para a segunda passagem, o contexto – já o vimos – não permite nenhuma dúvida. Aquela que regenera os homens é aquela de quem nasceu o próprio Cristo. Massuet, por outro lado, argumenta apenas com uma pretendida impossibilidade de atribuir a uma outra que não seja a Igreja a regeneração dos homens: «Nec enim haec appositio, “eam quae regenerat homines in Deum”, ulli alteri quam Ecclesiae convenire potest» [N.T.: Com efeito, este aposto: “aquela que regenera os homens para Deus”, não pode referir-se a mais nenhuma outra senão à Igreja]. Veremos imediatamente o que é preciso pensar acerca disto: o ilustre editor poderia muito bem ter sido aqui vítima de alguma ideia preconcebida.

 Vamos à primeira passagem. O seu contexto parece, antes de mais, muito menos decisivo. Tão pouco o é, aliás, no entender de Massuet, pois, para fazer reconhecer a Igreja sob o nome de «a virgem», recorre à segunda passagem: «Per virginem hic intellegit auctor, non B. Mariam Christi matrem, sed Ecclesiam, uti constat ex loco parallelo infra n. 11» [N.T.: Por virgem o autor entende aqui não a Bem Aventurada Maria, mãe de Cristo, mas a Igreja, como consta do lugar paralelo abaixo no nº 11]. Mas, na realidade, o contexto aqui também obriga a entender toda a passagem como referindo-se á Virgem Maria.

 Como já vimos, há identidade entre a «regeneratio ex virgine per fidem» [regeneração procedente da virgem por meio da fé] e a «generatio nova, mire et inopinate a Deo, in signum salutis, data» [nova geração, data por Deus maravilhosa e inesperadamente, em sinal de salvação]. Ora esta geração nova, maravilhosa etc… é, sem dúvida nenhuma, a geração virginal do Verbo incarnado. Ela é, com efeito, segundo o paralelismo com as frases que precedem, a via pela qual Deus veio ao encontro do homem e é ela que coloca os Ebionitas fora da capacidade de explicar a obra da salvação, porque a negam. Mas ela é também, não menos evidentemente, segundo o que se diz aqui mesmo e na frase que vem a seguir[6], a geração que apõe a «geração da morte» à «geração segundo o homem» e na qual é preciso participar para sair desta. Ora esta é a regeneração necessária à salvação e a argumentação de Santo Ireneu acaba por identificar a virgem, de quem se renasce para a fé, com a virgem de quem nasceu o próprio Cristo.

 De resto, esta «geração nova, maravilhosa e inesperadamente dada por Deus em sinal de salvação» e que, sob o ponto de vista de Massuet, – lembremo-nos da construção da frase: eam videlicet regenerationem [isto é, aquela regeneração] – é identificada aqui com a nossa geração «ex virgine» [procedente da virgem], Santo Ireneu identifica-a sempre com a geração virginal do Emanuel e com as mesmas palavras significativas, sublinhemo-lo. O Profeta, ao dizer «ipse Dominus DABIT SIGNUM, id quod erat INOPINATUM GENERATIONIS eius significavit, quod nec factum esset aliter, nisi Deus… ipse DEDISSET SIGNUM… Quoniam INOPINATA SALUS hominibus inciperet fieri, Deo adjuvante, INOPINATUS ET PARTUS VIRGINIS fiebat, DEO DANTE SIGNUM HOC» [N.T.: o próprio Senhor DARÁ UM SINAL, sinal esse que significou o carácter INESPERADO DA GERAÇÃO dele e que não teria sido realizado se o próprio Deus não TIVESSE DADO UM SINAL. Porque INESPERADA era a SALVAÇÃO que começaria a realizar-se para os homens, vindo Deus em seu auxílio, e também INESPERADO se tornava o PARTO DA VIRGEM, sendo DEUS A DAR ESTE SINAL] (III, 21, 6; M. 953 e cf. 1, M. 946: «Deus igitur homo factus est et ipse Dominus salvavit nos, ipse DANS VIRGINIS SIGNUM» [Portanto Deus fez-se homem e o mesmo Senhor nos salvou, sendo o próprio Deus a DAR O SINAL DA

VIRGEM]; 19, 3: «Filius Dei… factus est filius hominis. Propter hoc et ipse Dominus DEDIT nobis SIGNUM in profundum… quod non postulavit homo, quia NEC SPERAVIT VIRGINEM PRAEGNANTEM fieri posse» [O Filho de Deus fez-se filho do homem. Por isso também o próprio Senhor nos DEU UM SINAL na profundidade, que o homem não solicitou, porque NUNCA ESPEROU QUE UMA VIRGEM pudesse FICAR GRÁVIDA], M. 941 B).

 Prestando só atenção à construção gramatical e ao contexto das duas passagens examinadas, ao seu paralelismo recíproco e ao paralelismo do primeiro com os que acabamos de citar, não parece duvidoso que a mãe de Cristo não seja a virgem à qual Santo Ireneu atribui a nossa regeneração.

 Mas como é que isto pode entender-se? Massuet considerou-o inadmissível. A doutrina de Santo Ireneu comportará semelhante correspondência da nossa regeneração com a geração virginal de Cristo? Claro que sim! E nada pode provar melhor a justeza da nossa interpretação do que a sua concordância com o ensinamento, aliás muito conhecido e muito firme, de Santo Ireneu sobre a maneira como se cumpre a nossa restauração em Cristo.

 Sabemos que o que domina neste ensinamento é a ideia da solidariedade estreita, estabelecida pela Incarnação, entre Cristo e a humanidade pecadora. No Redentor é a própria raça de Adão que toma vantagem sobre o demónio e o pecado e que, pela sua união com Deus, passa da morte à vida[7]. O Verbo, tomando a carne da descendência daquele que pecou, une-se e incorpora-se em todos os que participam da mesma carne. Ele «recapitulou», isto é, tomou em si para o refazer, não somente Adão, mas com Adão todos os povos que dele derivam[8]. Também os passos de Cristo são os passos da própria humanidade. Tal como nós próprios desobedecemos todos em Adão, tal como nós nos tornamos nele os devedores de Deus, e tal como – numa palavra que diz tudo – nos tornamos mortos em Adão, assim também nós obedecemos, quitamos nossa dívida e recobramos a vida em Cristo[9]. Esta participação na sua vida e nas suas obras tem, sem dúvida, como condição, para se tornar actual, a nossa união com ele pela fé; porém, se fizermos a nossa ligação voluntária a este irmão mais velho da família humana providencialmente reconstituída, o que ele próprio faz somos nós já que o fazemos nele.

 Ora a obra da nossa restauração, da nossa recuperação, da nossa «regeneração», se ela se consumou na morte[10] e ressurreição de Cristo, começou no entanto precisamente na hora da sua concepção virginal: esta relação da reabilitação dos homens com o acontecimento da Incarnação é também uma das ideias dominantes de Santo Ireneu. A união no Filho de Deus das duas naturezas inimigas é já reconciliação[11]. A carne, a nossa carne em nós, a nossa carne mortal e corruptível, pelo facto de nela estar presente Deus, que é o princípio da vida, encontra-se já vivificada e tornada incorruptível12. Daí que, quando Deus cumpriu este prodígio incrível da Virgem Mãe, a salvação começou já a cumprir-se para os homens[12]; já quando o Filho de Deus incarnou, fazendo-se homem… ele deu-nos a salvação imediatamente e como que em síntese[13], isto é, que desde então nós recuperamos o que tínhamos perdido em Adão, a saber: o ser à imagem e semelhança de Deus.

 Desde a Incarnação – numa palavra – a nossa regeneração pode ser considerada como cumprida, porque, no Cristo que nasce de Maria, está toda a humanidade que renasce para a vida. «O nascimento do Senhor, com efeito, é o nascimento do primogénito dos mortos; todos os antigos patriarcas, ele os recolheu em seu seio e eis que os regenerou a todos para a vida de Deus: tal como Adão foi o primeiro dos mortos, assim Ele é o primeiro dos vivos»[14].

 Ora aqui está onde, nesta doutrina geral, se insere o ponto particular que nos ocupa: se é verdade que, de acordo com a solidariedade estabelecida entre Cristo e os homens, o que para Cristo foi a sua concepção e o seu nascimento é já para os homens a regeneração deles; também é verdade, na sequência disso, que a mãe, que o dá à luz, os regenera a eles também.

 E esta conclusão está tão realmente conforme com o pensamento de Santo Ireneu que ela se encontra expressa por ele no próprio capítulo donde nós a deduzimos. O paralelismo de Maria com Eva acompanha aí, com efeito, o de Cristo com Adão. Eva, diz ele aí em resumo, era ainda virgem, quando pela sua desobediência se torna para todo o género humano uma causa de morte; mas Maria o era também, quando pela sua obediência se torna para ela mesma e para todo o género humano a causa da salvação. Este acto de obediência libertador é, com efeito, aquele que lhe faz responder à palavra do anjo com o Ecce ancilla Domini [eis a escrava do Senhor]. É desde essa altura que o nó da desobediência de Eva se desfaz pela obediência de Maria; o que Eva, ainda virgem, tinha ligado pela sua incredulidade, a virgem Maria o desliga pela sua fé[15].  Eva é causa da nossa morte e autora do nosso cativeiro; Maria é causa da nossa salvação e autora da nossa libertação: eis a mãe que nos gera para a morte e a mãe que nos regenera para a vida de Deus. Também é quase neste termos que a mesma ideia se encontra num outro capítulo. Trata-se sempre da obediência de Maria à palavra do anjo; Santo Ireneu a opõe à desobediência de Eva causada pela serpente: «Como o género humano foi forçado a morrer por uma virgem, é por uma virgem que ele é salvo. Assim a balança mantém o equilíbrio: a desobediência virginal contrabalança com a obediência virginal…; a astúcia da serpente é vencida pela simplicidade da pomba e os laços que nos tinham amarrado à morte são desfeitos»17.

 Nesta palavra ‘regeneração’ está o pensamento expresso nas duas passagens: a aceitação por parte de Maria de ser a mãe de Cristo livra-nos da morte e, portanto, faznos renascer para a vida.

 Por outro lado, esta relação entre a nossa regeneração e a geração virginal é lançada por Santo Ireneu contra todos os que negam a união em Cristo de uma divindade e de uma humanidade reais. Ele insiste nisso particularmente nas duas passagens seguintes, que nós justapomos à primeira das que nos ocupam, para conseguirmos mostrar como a menção da Igreja, como autora da nossa regeneração, lhe é estranha. 

III, 19, 1 IV, 33, 4 V, 1, 3

«Qui nude tantum eum dicunt ex Joseph generatum, perseverantes in servitute pristinae inobedientiae, moriuntur; nondum commisisti Verbo Dei Patris… Ignorantes eum qui ex Virgine est Emmanuel, privantur munere ejus, quod est vita æterna: non recipientes autem Verbum incorruptionis, perseverant in carne mortali, et sunt debitores mortis, antidotum vitae non accipientes. Ad quos Verbum ait: “…ὑμεῖς ὡς ἄνθρωπου ἀποθνήσκετε”. Ταῦτα λέγει πρὸς τοὺς μὴδεξαμένους τὴν δωρεὰν τῆς υἱοθεσίας, ἀλλ’ ἀτιμάζοντας τὴν σάρκωσιν τῆς καθαρᾶς γεννήσεως τοῦ Λόγου τοῦ Θεοῦ, καὶ ἀποστεροῦντας τὸν ἄνθρωπον τῆς εἰς Θεὸν ἀνόδου» (M. 938-939).

«Quemadmodum relinquet mortis generationem, si non in novam [transeat] generationem mire et inopinate a Deo, in signum salutis, datam, quae est ex virgine per fidem, regenerationem. Vel quam adoptionem accipient a Deo, permanetes in hac genesi quae est secundum hominem in hoc mundo?» (M. 1074-1075). «Vani autem Ebionaei, unitionem Dei et hominis per fidem non recipientes in suam animam, sed in veteri generationis fermento perseverantes, neque intelligere volentes quoniam… [Deus] operatus est incarnationem eius [id est, Filii], et novam ostendit generationem, uti quemadmodum per priorem generationem mortem haereditavimus, sic per generationem hanc haereditaremus vitam. Reprobant itaque hi commistionem vini coelestis et solum aquam saecularem volunt esse, non recipientes Deum ad comistionem suam» (M. 1122-1123).

[N.T.: Os que simplesmente dizem que ele nasceu de José, perseverando na escravidão da antiga desobediência, morrem; tu ainda não te misturaste ao Verbo de Deus Pai… Ignorando que aquele que procede da Virgem é o Emanuel, privam-se do seu dom, que é a vida eterna. Porém, não recebendo o Verbo da incorruptibilidade, perseveram na carne mortal e são devedores da morte, não recebendo o antídoto da vida. A estes o Verbo diz: “… vós como homens morrereis”. Ele dirige estas palavras aos que, recusando receber o dom da adopção, desprezam esta geração sem mancha, que foi a Incarnação do Verbo de Deus, privando o homem da sua ligação a Deus.]

[N.T.: Como é que deixará [o homem] a geração da morte, se não passar para a nova geração dada maravilhosa e inesperadamente por Deus como sinal de salvação: uma regeneração que procede da virgem por meio da fé? Ou receberão de Deus a adopção, se eles permanecem neste nascimento que é segundo o homem neste mundo?] [N.T.: Ineptos são os Ebionitas, que não aceitam na sua alma a união de Deus e do homem pela fé, mas perseveram no velho fermento da sua geração, não querendo entender porque Deus operou a sua Incarnação, ou seja, a Incarnação do Filho, e mostrou a nova geração, para que, tal como nós herdamos a morte na anterior geração, assim herdássemos a vida nesta geração. Estes reprovam assim a mistura do vinho celeste e só querem ser a água deste mundo, não aceitando a sua mistura com Deus]

 As três passagens são tiradas duma argumentação contra os Ebionitas e, em cada uma, a «geração virginal», que estes hereges rejeitam, apresenta-se como a «geração nova» da qual eles se excluem pela mesma razão. Negá-la, com efeito, é «morrer» ou sobretudo é «perseverar na sua carne mortal», permanecer «devedor da morte», «escravo da primeira desobediência»; mas tudo isto acontece, porque há uma privação do «antídoto da vida» que é o Verbo, há um «não aceitar a sua mistura com Deus» – «ad commistionem suam» – há, por outras palavras, um «permanecer com o fermento da morte da geração primitiva», um «nascer apenas segundo os homens e não tomar parte na adopção divina». A geração virginal ou nova opõe-se, portanto, è «primeira geração», «à geração segundo os homens» e é «por ela que nós herdamos a vida, tal como foi pela outra que nós herdámos a morte». Sem dúvida, a fé é necessária; ela é para cada um de nós a condição colocada à nossa apropriação actual e pessoal do benefício concedido em Cristo e por Cristo a toda a humanidade; mas ela é apenas isso; porque a «geração nova» consiste numa «ligação» (εἰς Θεὸν ἄνοδος), numa «união» (unitio), e numa «mistura» (commistio) do homem e de Deus. Ora esta «mistura do vinho celeste e da água terrestre» cumpriu-se no momento em que se deu esta «pura geração carnal do Verbo de Deus, cuja grandeza os Ebionitas desconheciam». Deus realizou-a no momento da Incarnação e foi então que ele mostrou a geração nova». A Igreja não interveio nisso e o seu papel só pode ser considerado como uma cooperação na realidade da qual vem o homem novo que é o seu termo.

 Cá está, por consequência, o que Santo Ireneu quis dizer ao falar da Virgem que nos regenera: tornando-se a mãe do novo Adão, Maria, gerou para a vida todos os que se revestem dele e se identificam com ele.

 Para nos convencermos, de resto, que tal é o seu pensamento, basta reportarmonos uma vez mais à sua concepção da nossa restauração em Cristo.

 De facto, a união que tem lugar na Incarnação, entre o Verbo de Deus e o homem que a morte detém em seu poder[16], é já «a reforma do género humano»[17]. É então que é produzido, para além de toda a vontade carnal ou humana, o homem vivo e perfeito, o Adão feito – ou refeito – à imagem e semelhança de Deus[18]. Fazendo-se homem o Filho de Deus, o homem «transporta, contém e abraça o Filho de Deus»[19], «o homem é misturado ao Verbo de Deus»[20]. Como a sua participação na filiação divina consiste precisamente na sua semelhança com o Filho, nesta comunhão mútua da divindade com a humanidade e da humanidade com a divindade que se cumpre em Cristo[21], e como a vida lhe é devolvida da mesma maneira que lhe tinha sido comunicada antes[22], pela união do próprio Deus com a substância humana saída do primeiro Adão[23], a mulher de quem foi tirada esta substância humana, pelo facto de ela ter assim concebido e dado à luz o homem novo, é apresentada como tendo regenerado todos os que nela reencontram a vida, perdida no homem velho.

 As expressões de Santo Ireneu, por conseguinte, que nós não ousamos aplicar à maternidade espiritual de Maria, devem ser tomadas no sentido que o seu contexto imediato impõe: «a virgem, de quem renascemos pela fé», aquela que «regenera os homens em Deus», é a Virgem Mãe de Cristo. O bispo de Lião, no fim do século II, não diz dela nem nada mais, nem nada menos do que o que dela escreveu o Papa de Roma, no início do século XX: «In uno eodemque alvo castissimae Matris et carnem Christus sibi assumpsit et spiritale simul corpus adjunxit, ex iis nempe coagmentatum qui credituri erant in eum. Ita ut Salvatorem habens Maria in utero, illos etiam dici queat gessisse omnes, quorum vitam continebat vita Salvatoris»[24] [N.T.: Num só e mesmo seio da castíssima Mãe, Cristo não só assumiu para si a carne, mas também uniu a si ao mesmo tempo um corpo espiritual formado por todos os que haviam de crer nele. De tal modo que pode dizer-se que Maria, tendo no seu ventre o Salvador, levava também todos aqueles cuja vida estava contida na vida do Salvador].

 

 REFERÊNCIAS


[1] Não os encontrei nem no P. Terrien: La mère de Dieu et la mère des hommes; nem em Neubert: Marie dans l´´Eglise anténicéenne; nem em Largent: La maternité adiptive de la très Sainte Vierge; nem em Newman: Du culte de la Sainte Vierge dans l’Église Catholique.

   O Dr. Klebba, na sua tradução do Adv. Haereses (Bibliothek der Kirchenvater. Kempten et Munich, 1012), apenas dá o sentido literal, sem nada precisar.

[2] «Quomodo homo transierit in Deum si non Deus in hominem?» [N.T.: Como passará o homem para Deus, se Deus não passar para o homem?]. O grego repete o verbo subentendido na tradução: «Πῶς ἄννθρωπος χωρήσει εἰς θεὸν εἰ μὴ ὁ θεὸς ἐχωρήθη εἰς ἄνθρωπον» (M. 1074 C).

[3] O Dr. Klebba (op. cit. p. 107) traduz assim: «Wie aber wird er die Gerburt des Todes verlassen, wenn er nicht wiedergeboren wird zu der neuen Geburt, die da von Gott wunder bar und unbegreiflich zum Zeichen des Heils aus der Jungfrau durch den Glauben geschenkt wurde».

[4] Eusébio, H.E. V, 1, 45.

[5] Desde o século II, esta concepção da Igreja cossa mãe é clássica e universal. Cf. a nota de M. Lebreton: Mater Ecclesia, in Recherches de science religieuse, II (1911), p. 572-573.

[6] «Quam [alias: quemadmodum, no sentido de quomodo] adoptionem accipient a Deo, permanentes in hac genesi quae est secundum hominem, in hoc mundo?» [N.T.: Como receberão de Deus a adopção, se eles permanecem neste nascimento que é segundo o homem neste mundo?] (M. 1075 A).

[7] III, 18, 7 (M. 938 A); V, 21, 1 (M. 1179 C), etc.

[8] «Ipse est qui omnes gentes exinde ab Adam despersas, et universas línguas, et generationem hominum cum ipso Adam in semetipso recapitulatus est» [N.T.: Ele é aquele que recapitulou em si mesmo todos os povos dispersos desde Adão, bem como todas as línguas e a geração dos homens com o próprio Adão] (III, 22, 3).

[9] V, 16, 3; V, 21, 1, etc., etc.

[10] «Per passionem reconciliavit nos Deo» [N.T.: Pela sua paixão reconciliou-nos com Deus] (III, 16, 9; M. 929 A). «Secundam plasmationem, eam quae est a morte, per suam passionem donans» [N.T.: dando-nos pela sua paixão aquela segunda modelagem que se faz a partir da morte] (V, 23, 3; M. 1185

C), etc., etc.

[11] «In amicitiam restituit nos Dominus per suam incarnationem» [N.T.: O senhor restituiu-nos à amizade pela sua incarnação] (V, 17, 1; M. 1169 A; Cf. III, 18, 7; M. 937 B). 12 III, 18, 7; 19, 1 (M. 939-940). 

[12] «Quoniam inopinata salus hominibus inciperet fieri…, inopinatus et partus Virginis fiebat» [N.T.: Porque inesperada era a Salvação que começaria a realizar-se para os homens …, e também inesperado se tornava o parto da Virgem]  (III, 21, 6: M. 953 A).

[13] «Quando incarnatus est, et homo factus, longam hominum expositionem in se ipso recapitulavit, in compendio nobis salutem praestans, ut quod perdideramus in Adam, id est secundum imaginem et similitudinem esse Dei, hoc in Christo Jesu reciperemus» [N.T.: Quando incarnou e se fez homem, recapitulou em si mesmo a longa história dos homens, concedendo-nos a salvação em síntese, para que, o que tínhamos perdido em Adão, ou seja, o sermos à imagem e semelhança de Deus, o recebêssemos em Jesus Cristo]  (III, 18, 1; cf. V, 1, 3 e 16, 2). 

[14] III, 22, 4 (M. 959 B).

[15] III, 23, 4. Cf. Erweis der apostolischen Verkundigung, 33. 17 V, 19, 1.

[16] «Id ipsum [ factus est] quod erat ille, id est homo [redimendus], qui a morte tenebatur» [N.T.:

Ele fez-se aquilo que este era, ou seja, homem necessitado de redenção que a morte tinha sem seu poder] (III, 18, 7: M. 938 A)

[17] «Verbum… in novíssimo tempore, hominem in hominibus factum, reformasse quidem humanum genus…» [N.T.: O Verbo nos últimos tempos fez-se homem entre os homens e reformou na verdade o género humano] (IV, 24, 1: M. 1049 C. Cf. abaixo).

[18] «In fine non ex voluntate carnis, neque ex voluntate viri, sed ex placito Patris, manus eius vivum perfecerunt hominem, uti fiat Adam secundum imaginem et similitudinem Dei» [N.T.: No fim, não pela vontade da carne, nem pela vontade do homem, mas por beneplácito de Deus, as suas mãos fizeram com perfeição o homem vivo, para que o Adão se torne à imagem e semelhança de Deus] (V, 1, 3: M. 1123 B). «Quando homo Verbum Dei factum est, semetipsum homini, et hominem sibimetipsi assimilans, ut per eam quae est ad Filium similitudinem, pretiosus homo fiat Patri» [N.T.: Quando o Verbo de Deus se fez homem, assemelhando-se a si mesmo ao homem e o homem a si mesmo, para que o homem se tornasse precioso aos olhos do Pai, por meio daquela semelhança que tem com o Filho] (V, 16, 2).

[19] «Filius Dei, hominis filius factus est, ut per eum adoptionem percipiamus, portante homine, et capiente, et amplectente Filium Dei» [N.T.: O Filho de Deus fez-se filho do homem, para recebermos por Ele a adopção, levando, contendo e abraçando o homem em si o Filho de Deus] (III, 16, 3: M. 922 C).

[20] «Propter hoc enim Verbum Dei homo, et qui Filius Dei est filius hominis factus est, ut homo, commistus Verbo Dei et adoptionem percipiens, fiat filius Dei» [N.T.: Por isso, o Verbo de Deus fez-se homem, e quem é Filho de Deus fez-se filho do homem, para que o homem, misturado ao Verbo de Deus e recebendo a adopção, se torne filho de Deus] (III, 19, 1: M 939 B). Eu cito a versão latina tal como a estabelece Massuet, segundo o grego: ver as suas notas 55 e 56 a este propósito.

[21] «Qua enim ratione filiorum adoptionis eius participes esse possemus, nisi per Filium eam, quae est ad ipsum, recepissemus ab eo communionem; nisi Verbum eius communicasset nobis, caro factum? Quapropter et per omnem venit aetatem, omnibus restituens eam, quae est ad Deum, communionem» [N.T.: Como é que poderíamos ser participantes da sua adopção filial, se não recebêssemos dele por meio do Filho aquela comunhão existe com ele, e se o seu Verbo feito carne não entrasse em comunhão connosco?] (III, 18, 7: M. 937 C).

[22] «Quemadmodum ab initio plasmationis nostrae in Adam, ea quae fuit a Deo aspiratio vitae, unita plasmati, animavit hominem…, sic in fine, Verbum Patris… adunitus antiquae substantiae plasmationis Adae, viventem et perfectum efficit hominem… ut quemadmodum in animali omnes mortui sumus, sic in spiritali omnes vivificemur» [N.T.: Tal como desde o início da nossa modelagem na pessoa de Adão, aquele sopro de vida que veio de Deus, unido ao barro moldado, animou o homem…, assim também no fim o Verbo do Pai… unido à antiga substância do barro moldado de Adão, se tornou homem vivo e perfeito… para que, assim como na dimensão animal todos morremos, assim também na dimensão espiritual todos seremos vivificados] (V, 1, 3: M. 1123).

[23] «Christus erat… Deus, hominis antiquam plasmationem in se recapitulans» [N. T.: Cristo era o Deus que recapitula em si a antiga modelagem do homem] (III, 18, 7: M. 938 B). Cf. Erweis der apostolischen Verkundigung, 33 e seguintes.

[24] Encíclica de Pio X «Ad diem illum», para o jubileu da Imaculada Conceição: 2 de Fevereiro de 1904 (Edition des Questions actuelles du 20 féverier 1904, p. 200). 

 

PARA CITAR


 A. Galtier, La Vierge qui nous régénère, in Recherches de Science Religieuse, 5 (1914), p. 136-145. Disponível em: <>. Desde 13/03/2019. Traduzido por: Pe. Ze. 

 

 

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