Est Sane Molestum

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A AUTORIDADE DOS BISPOS DEVE SER RESPEITADA
 
[01] É sem dúvida alguma desagradável¹ se mostrar severo com aqueles a quem se ama como filhos, mas isto se deve fazer de vez em quando, ainda contra sua vontade, os que devem procurar e assegurar a salvação dos demais. Esta severidade é muito mais necessária quando se teme justificadamente que com o tempo se agravem os danos, com o conseguinte aumento de perigo para os bons. - Estas razões, veneráveis irmãos, moveram faz pouco a condenar, em virtude de tua autoridade, um escrito repreensível, que era injurioso para a sagrada autoridade dos bispos e que atacava não apenas a um bispo, mas a muitos, cuja de maneira de agir e governar se discutiu com um estilo desenfreado e setenciador, como se tivessem perdido a suas sagradas e grandes obrigações.- É, contudo, intolerável que os católicos leigos pretendam arrogar-se publicamente nos jornais o direito de julgar e falar de qualquer pessoa, incluindo os bispos, como lhes pareça, e de sentir e agir livremente segundo o próprio critério em tudo que não toque a fé divina.
[2] Nesta matéria não deves duvidar, veneráveis irmãos, de nosso assentimento e aprovação. É parte principal de nosso ministério vigiar e nos esforçarmos para que a autoridade divina do episcopado se mantenha inviolada e incólcume. É igualmente nossa missão, ordenar e fazer que esta autoridade seja respeitada em todas as partes como é devido, e que os católicos não faltem ao mais mínimo a este dever de obediência e reverência aos bispos. O divino edifício que é a Igreja se funda, como em seu principal cimento, primeiramente em Pedro e seus sucessores, depois nos apóstolos e nos bispos, sucessores dos apóstolos; por isto, o que ouve ou despreza aos bispos age como se ouvisse ou desprezasse ao próprio Cristo. Os bispos constituem a parte mais augusta da Igreja, isto é, a que ensina e governa aos homens por direito divino; por este motivo, todo aquele que resiste, ou rechaça pertinazmente suas ordens, está separado da Igreja.² - Nem deve limitar-se, por outra parte, a obediência aos limites marcados pelas coisas pertencentes a fé cristã, senão que a área da obediência é muito maior, pois se estende a todas as matérias que compreende a autoridade episcopal. São os bispos mestres da fé sagrada no povo cristão, e são eles os que presidem como orientadores e guias, e de tal maneira presidem que terão de dar conta a Deus da salvação dos homens que lhes foram confiados. Por isso São Paulo exorta aos cristãos dizendo: Obedeçam a vossos pastores e estejas sujeitos, que eles velam sobre vossas almas, como quem a de dar conta delas³.
[3] É, pois, coisa clara que na Igreja há duas classes de pessoas, distintas e separadas por sua mesma natureza: os pastores e o rebanho, isto é, os governantes e os fiéis. É função dos primeiros ensinar, governar, dirigir a disciplina, dar preceitos; é obrigação dos segundos submeter-se, obedecer, cumprir os mandatos, honrar a seus pastores. Mas se os que estão chamados a obedecer ocupam o lugar dos que são superiores, não só obram com temeridade injuriosa, mas que, além disso, enquanto estão ao lado deles, jogam por terra a ordem providencialmente estabelecida por Deus, autor da Igreja.- Se não sabe fazer honrar a sua dignidade, ou não cumpre totalmente suas obrigações sagradas, não por isto se segue que perca parte alguma de sua autoridade; e enquanto conserve a comunhão com o Romano Pontífice, a ninguém é lícito esvaziar a obediência e a reverência que são devidas à jurisdição daquele. Pelo contrário, não é função dos particulares investigar os feitos dos bispos, ou repreendê-los, porque isto somente pertence ao Pontífice Máximo, pois a este Cristo confiou não só os cordeiros, mas também todas as ovelhas. No máximo, em caso de uma queixa grave, concede-se deferir o assunto ao Romano Pontífice; mas se fará isso com moderada cautela, como aconselha o cuidado do bem comum, não gritando nem ameaçando, pois desta maneira se produzem escândalos e divisões, ou pelo menos se aumentos os existentes.

[A VIRTUDE DA OBEDIÊNCIA]

[4] Estes pontos fundamentais, que não podem ser impugnados sem provocar uma grave confusão e desordem no regime eclesiástico, Nós temos inculcado e repetido várias vezes. Testemunhos eloquentes deles são a carta a nosso legado na França, publicada, novamente por ti, e outras dirigidas ao Arcebispo de Paris, ao episcopado belga, a alguns bispos da Itália e duas encíclicas dirigidas aos episcopados da França e Espanha, respectivamente. Aproveitamos a ocasião para recordar estes documentos e para inculcar de novo sua doutrina, confiando que com nossa autorizada advertência se acalme a excitação atual dos espíritos e se confirmem todos com segurança na fé, na obediência e na justa e devida reverência a todos os que tem participação do poder sagrado na Igreja.- Destas obrigações se apartam não só os que rechaçam abertamente a autoridade dos orientadores eclesiásticos, mas também aqueles que a resistem indo a astúcia, a falsificação e a dissimulação. A virtude verdadeira e legítima da obediência não se contenta com palavras, senão que consiste principalmente na disposição da alma e da vontade.- E como se trata concretamente da culpa cometida por um periódico, não queremos deixar de ordenar mais uma vez aos periodistas católicos que respeitem como legislação sagrada, e não se apartem um ponto dela, os documentos e ordens que mais acima indicamos. Persuadam, ademais, de que se em algum ocasião falharem este propósito e se deixarem levar por seu próprio juízo, ou seja, ferindo a autoridade dos bispos e se arrogando uma autoridade da qual carecem, em vão pensarão que se fazem dignos do louvor genuino do catolicismo, ou que servem de modo devido a causa sagrada, cuja defesa e vida assumiram.- Desejando Nós que voltem a saúde os que erraram, e que em todos os espíritos se grave o respeito aos sagrados bispos, a ti, venerável irmão, e a todo teu clero e povo transmitimos a benção apostólica como prova de nossa paternal benevolência e amor.

Dado em Roma, junto a São Pedro, o dia 17 de dezembro de 1888, ano undécimo de nosso pontificado.

¹. Leão XIII, epístola ao arcebispo de Turín, 17 de dezembro de 1888: AL 8,385-389.
². Mt. 18,17
³ Hb. 13,17
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