O obscurecimento das verdades na Igreja

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em ROME ET LA RÉVOLUTION FRANÇAISE

Podemos, em um segundo momento, debitar à Pistoia acolher uma idéia que era como um ponto de cruzamento entre as várias tendências reformistas do final do século e as correntes jansenistas, e que está fortemente ligada à concepção da história da Igreja. Os atos de Sínodo apresentam uma proposta que foi a primeira condenada pela Bula Auctorem fidei: "Nestes últimos séculos se difundiu um ofuscamento geral sobre as verdades de maior importância que dizem respeito à religião e que são a base da fé e da doutrina moral de Jesus Cristo” . Esta proposta abriu o decreto "da graça, da predestinação e os fundamentos da moralidade", que explicitava, em seguida, como as concepções autênticas sobre a graça e a justiça cristã gradualmente foram sendo corrompidas no âmbito da moral, deixando apenas uma concepção corrompida de caridade e virtude cristã. Já em 1781, Pietro Tamburini reclamava das densas trevas em que estavam mergulhados maioria dos membros da Igreja .

Essa idéia estava enraizada nos escritores Jansenistas da época ao conclamar um concílio geral contra a Unigenitus. O Catecismo de Mésenguy explicava por exemplo, que assim como Deus permitiria a doença no corpo humano, também permitiria as doenças na verdade da Igreja. A existência dos querelantes foi para estes homens a prova de que Deus deixara alguns justos em Sua Igreja . Pietro Tamburini considerava em primeiro lugar o depósito da fé, ou seja, a revelação da Salvação em Cristo transmitida desde os primeiros séculos até os dias atuais, depósito que era sempre necessário manter a pureza: a teologia dos querelantes se constituía como a recolocação desta mesma pureza, mesmo após os erros da teologia escolástica, que fez entrar a filosofia no depósito da fé. Ele foi lançado no molinismo e na casuística. Pastores e fiéis desempenharam um papel conjunto para guardar o depósito. Cristo prometeu que a Igreja iria manter a verdade, mas não forçosamente em Sua maioria! As divisões  existentes eram uma prova de obscurecimento. Para retornar à fé , era necessário discutir os monumentos da tradição. E a certeza da verdade só poderia vir de uma decisão de um concílio geral, ou de uma aprovação de todo o corpo dos pastores, ou de uma decisão pontifical suscitando o assentimento de toda a Igreja . O apelo a um concílio geral, portanto, mostrou um desejo sincero de encontrar a paz e a unidade na Igreja , bem como o apelo para a intervenção do soberano na implementação da disciplina eclesial.

Os quatorze bispos da assembléia de Florença, em abril de 1787, protestaram contra a fórmula de Pistoia, alegando que precisava-se ter a visibilidade, a infalibilidade e a constância da verdade na Igreja,  de forma exata e sensível. Ricci não foi a única voz isolada enquanto bispo. Não se pode afirmar que os momentos da verdade na Igreja se reduzam aos primeiros séculos e a alguns concílios ecumênicos. Bolgeni responde ainda que os dogmas só podem ser objecto de obscurecimento em sua definição. A imprecisão só pode preceder -  jamais se seguir - a uma definição .

Para o cardeal Gerdil finalmente, a resposta é colocada no plano do primado de jurisdição da Igreja e da inerrância do papa. A Sé de Pedro não é um reflexo das Igrejas particulares ou de suas opiniões, mas um centro e um princípio ativo, como plenitude de ordem e de jurisdição, inseparavelmente do depósito da fé. Mas observa-se que a primeira congregação para o exame do Sínodo de Pistoia analisará a proposição de obscurecimento como afetando a Igreja, não ao papado .

Ricci falará  novamente acerca deste obscurecimento das verdades da Igreja por ocasião da Constituição Civil do Clero, em 1791, quando ele aprovar a iniciativas da Constituinte . Ele irá apontar a distinção entre o poder de ordem e o poder de jurisdição como causa dos erros relacionados à submissão do episcopado à monarquia papal. Ao reivindicar poder espiritual ilimitado dos bispos, ele ao mesmo tempo reivindicava o poder temporal de delimitar as dioceses, daí a justeza das reformas. Mas esses argumentos soam falsos tanto à Roma como à Paris, pois a própria Igreja Constitucional em breve deverá reivindicar a sua independência em face ao poder.

Para Roma, esta tese está relacionada com o papel do Estado reformador da Igreja, e ela não admite uma tal ingerência. Cabe a ela se reformar, não se deve confundir, como disse Boisgelins, os abusos com as estruturas. O obscurecimento refere-se ao jurisdicionalismo naquilo que há de mais censurável. A proposta do sínodo terá a honra de ser a primeira condenada como "herética" pela Auctorem fidei  31. Este ponto não tem relação com a reflexão sobre o desenvolvimento do dogma que surgirá no século XIX.

 

PARA CITAR


PELLETIER, Gérard. O obscurecimento das verdades na Igreja - Disponível em: < http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/diversos/663-o-obscurecimento-das-verdades-na-igreja >. Desde: 04/06/2014. Tradução: JBF.

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