Don Cantoni responde ao padre Lanzetta

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“A Igreja é, tanto antes como depois do Concílio, a mesma Igreja uma, santa, católica e apostólica em caminho através dos tempos”. (Bento XVI)

DON CANTONI RESPONDE AO PADRE LANZETTA
Publicamos – tomando-a do site da Opus Mariae Matris Ecclesiae – um artigo de Don Pietro Cantoni, em resposta a uma recensão, feita pelo padre Serafino Maria Lanzetta F.I., do recente livro do mesmo Don Cantoni (“Riforma nella continuità. Riflessioni sul Vaticano II e sull’anti-conciliarismo”, Milano, Sugarco, 2011).
Lemos também, na introdução do artigo, que se trata de um primeiro episódio de um programa intitulado “Teologia de joelhos”: nos congratulamos com este projeto, que esperamos que seja útil a muitos, na Igreja Católica, e especialmente para os “pequenos”, pouco versados em teologia mas fiéis e obedientes à Sagrada Escritura, a Tradição e ao Magistério.

RESPOSTA AO PADRE S.M. LANZETTA, FI
SERAFINO M. LANZETTA, FI, Un “Anno della Fede” a cinquant’anni dal Concilio. Tra ermeneutiche in conflitto, in: Fides Catholica 6 (2, 2011), pp. 5-19
Para um autor é sempre um prazer que se fale do seu livro. Uma resenha é algo normalmente e compreensivelmente desejado, sobretudo quando isto acontece em uma revista especializada; deste modo eu deveria estar contente que padre Serafino Lanzetta tenha dedicado a mim diversas páginas da revista Fides Catholica, sobretudo se esta recensão, especialmente se este comentário tem ainda a proeminência de um editorial, que em si, implica que toda a revista assume a responsabilidade pelo escrito.
As coisas mudam um pouco se si olha ao redor e ao conteúdo da análise, que poderia ser definida, acredito que sem exagero, uma áspera crítica.
Não tenho a intenção aqui de responder a todos os ataques, muitos dos quais me aparecem pouco claro e aos quais me seria portanto, difícil, para não dizer impossível, dar uma resposta satisfatória. Me limito então a tratar qualquer ponto que julgo porém essencial.
Antes de tudo «o contexto». A minha posição é apresentada como uma das “hermenêuticas em conflito”. Depois do famoso discurso de 22 de dezembro de 2005, o papa teria dado início – segundo padre Lanzetta – a um “debate” no qual diversas hermenêuticas apresentariam as suas credenciais diante do mundo católico. A minha seria uma destas.



Sinto muito que foi entendida assim, porque tal de fato não foi a minha intenção. Me encontrei diante de uma tomada de posição do papa, que não é um teólogo entre os outros – como padre Lanzetta sabe bem – o qual em virtude do seu magistério ordinário afirmou que um dos problemas maiores que comprometem a nova evangelização hoje absolutamente necessária, é constituído por uma errada interpretação do concílio ecumênico Vaticano II, do qual “de um lado existe uma interpretação que gostaria de chamar “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” [...]. Da outra parte está a “hermenêutica da reforma”, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos doou [...]”. O Papa com estas palavras não tinha a intenção de iniciar uma discussão teológica se o último concílio ecumênico é em continuidade ou em ruptura com o passado, mas indicar o caminho justo e correto que consiste em uma hermenêutica da reforma na continuidade. Em palavras simples o Papa diz: muitos infelizmente interpretaram o concilio como se fosse um novo inicio da Igreja, pelo qual tudo o que existia antes deveria ser jogado fora e tudo deveria começar do princípio. Esta má interpretação – que aqui por simplicidade e pelo paradoxo retórico eu tenha um pouco grosseiramente exagerado – fez escola e a essa se anexaram alguns que tem sobre os conteúdos um juízo simetricamente oposto: o concilio ecumênico Vaticano II rompeu com a Tradição e portanto, deve ser criticado, diminuído, na verdade – logicamente – abolido.
É evidente que eu não me presto a este gênero de “discussão” enquanto me reconheço em tudo nas palavras do Papa. O título do meu livro é significativo: Reforma na continuidade. Reflexão sobre o Vaticano II e sobre o anti-conciliarismo. Se de discussão se pode falar, esta possui um caráter “apologético”, enquanto o cristão e por razões maiores o teólogo deve sempre estar pronto para dar a razão da própria fé. Se de “discussão” se fala, esta deve ser entendida como uma discussão entre teólogos fieis ao magistério (nesta caso concreto eu e padre Cavalcoli) e teólogos críticos do magistério – diria “do dissenso” – que ou seja, aproveitando do fato que aqui o Papa não fala ex cathedra, se propõem de refutar a hermenêutica da reforma na continuidade. O verdadeiro objeto da critica deles não são, deste modo tanto as “opiniões” de Don Pietro Cantoni e de Padre Giovanni Cavalcoli OP, quanto o magistério (ordinário) de Bento XVI.

Isto explica também o segundo ponto do contraste. Padre Lanzetta, de fato, considera que “às teses de Gherardini respondeu em modo tão ardente e com um tom quase ameaçador de excomunhão, Don Pietro Cantoni. A análise de Cantoni, segundo nosso parecer, voa por cima do verdadeiro problema, e nos deixa amargurados pelo modo com o qual o livro foi organizado: o denegrir de uma pessoa [...]” (p.12). O padre se mostra “amargurado” porque eu critico Monsenhor Gherardini. Mas eu, estou muito amargurado ao ver Monsenhor Gherardini (e aqueles que o seguem), que, de teólogo da escola romana, famosa pela sua fidelidade ao magistério, se transformou em um “teólogo do dissenso”. De fato, eu li a respeito do número 22 da constituição pastoral Gaudium et spes: “[...] a afirmação que ‘cada um, sabendo ou não, é redimido em Cristo’ pelo fato mesmo de ser homem, não salva quem a pronuncia do “erro na fé”. Com maior coerência teológica se poderia ir além e dizer: não salva da heresia formal. É realmente possível, então, aplicar a hermenêutica da continuidade a Gaudium et spes 22?” (BRUNERO GHERARDINI, Quod et tradidi vobis, Casa Mariana Editrice, Frigento 2010, p. 424). E este é somente um exemplo, talvez o mais significativo entre tantas expressões do mesmo calibre ou de qualquer modo equivalente. Por exemplo a expressão “O homem [...] na terra é a única criatura que Deus quis por si mesma” é definida “um texto absurdo e blasfemo”. (IDEM, Concilio Vaticano II. Il discorso mancato, Lindau, Torino 2011, p. 36 n. 3). Mas a estes textos – repito – se poderiam acrescentar tantos outros, cfr. Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, Casa Mariana Editrice, Frigento 2009, pp. 69-70.147.151.163. 180.188. 205.213.216.247-248).

No que diz respeito a infalibilidade do concílio, que eu não considero absolutamente um problema central, padre Lanzetta critica a minha posição, que consiste em qualificar teologicamente os textos do Vaticano II – tomados em conjunto – como “doctrina catholica”. Para fazer isso faço referência ao dois teólogos: Matthias Joseph Scheeben e padre Umberto Betti (Cardeal desde 24 de novembro de 2007). Infelizmente, no campo das qualificações teológicas não existe uma linguagem comum. Escolhi esta terminologia que significa substancialmente o máximo de autoridade abaixo de uma definição dogmática. Esta não exclui nem mesmo a sua infalibilidade, porque esta não se restringe aos textos definidos solenemente: existe, isto é, também uma infalibilidade do magistério ordinário. O padre (Lanzetta) se lamenta que eu não tenha entrado em particularidades, e não tenha dito o que é infalível e o que não o é e que me mantenha portanto em um nível genérico. Tenho duas razões para fazê-lo: antes de mais nada o tempo. Talvez passe despercebido um passo do meu livro, que por isto o reproduzo aqui por inteiro: “Não pretendo aqui colocar como tema o argumento enquanto tal, porque isto comportaria um estudo aprofundado do estatuto teológico do concilio mesmo e portanto do seu valor dogmático. Se trata de uma tarefa que – desenvolvido segundo as corretas exigências crítico-teológicas – é realmente complexo” (p.17). A segunda razão é o pouco valor que atribuo a esta questão enquanto tal: aquilo que conta é que se trata de magistério ordinário em seu máximo grau de solenidade, se depois, aqui e ali existam também afirmações para comparar, quanto à infalibilidade, à definições dogmáticas é uma questão secundaria que normalmente pedem tempo e aquele destacamento que somente o tempo pode dar, para poder ser resolvida. A não ser que se faça própria a posição (insustentável) segundo qual, é vinculante somente o que é infalível: “[...] as [...] doutrinas [do Vaticano II], não endereçadas a precedentes definições, não são nem infalíveis nem irreformáveis e portanto nem mesmo vinculantes”. (MONS. BRUNERO GHERARDINI, Concilio ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, Casa Mariana Editrice, Frigento 2009, p. 51). Que esta posição não possa ser seriamente feita sua por um teólogo católico, acredito de tê-lo já demonstrado no segundo apêndice do meu livro, intitulado L’assenso al magistero ordinario nei documenti precedenti il concilio ecumenico Vaticano II (pp. 133-142). Padre Lanzetta me fez notar que Scheeben “não conheceu o Vaticano II” (p.16). Informação preciosa que, porém não muda o meu julgamento, enquanto a sua mesma posição é partilhada por autores – tão seguros – que conheceram o Vaticano II. Basta apenas percorrer o bem conhecido “Compêndio de Teologia Dogmática” de Ludovico Ott, onde os temas chaves da colegialidade ou da sacramentalidade do episcopado são qualificados como “sentença certa” (Marietti – Herder, Torino – Roma 1969, pp. 487.488.748), que na terminologia adotada da Ott corresponde a “Doctrina catholica” de Scheeben e Salaverri. Mas basta somente refletir sobre o significado das palavras de Paulo VI, nas quais declara, com a autenticidade própria do magistério papal, em qual direção se deve mover o teólogo nesta pesquisa: “Há aqueles que se perguntam qual seja a autoridade, a qualificação teológica, que o Concilio quis atribuir aos seus ensinamentos, sabendo que este ‘evitou de dar oferecer definições dogmáticas solenes, que envolve a infalibilidade do magistério eclesiástico. E a resposta é conhecida por quem recorda a declaração conciliar de 6 de março de 1964, repetida em 16 de novembro de 1964: dada a natureza pastoral do Concílio, este evitou de pronunciar em modo extraordinário dogmas dotados da nota de infalibilidade; mas este, no entanto, muniu os seus ensinamento da ‘autoridade do supremo magistério ordinário, o qual magistério ordinário assim tão obviamente autentico deve ser acolhido docilmente e sinceramente por todos os fiéis, segundo a mente do Concílio acerca da natureza e objetivos de cada documento” (PAOLO VI, Udienza generale del mercoledì 12 gennaio 1966: Insegnamenti di Paolo VI, vol. IV [1966], p. 700). Dizer que um ensinamento tem a autoridade do supremo magistério ordinário significa ‘ipso facto’ atribuir-lhe a qualificação teológica máxima, sob (ou depois na ordem de importância) uma definição solene, seja esta ‘doctrina catholica’ ou ‘sententia certa’.

Mas existe ainda, um outro ponto a ser esclarecido, que talvez seja o mais importante de todos. Se as coisas são assim, somos então capazes de excluir totalmente a presença de uma heresia em um texto que – de qualquer modo – não goza da suprema garantia magisterial? Já Monsenhor Gherardini havia evocado a “fantasmagórica” questão de um “concilio erético (cfr. Valore “magisteriale” del VaticanoII,http://disputationestheologicae.blogspot.com/2009/05/presentation_05.htmlconsultato il 12 gennaio 2012). É notório que sobretudo no medievo os teólogos e os canonistas tenham discutido ardorosamente sobre a questão se o Papa pudesse cair em heresia. Esta possibilidade poderia induzir-nos a refletir ulteriormente e a considerar que nem sempre um pronunciamento que goza da qualificação teológica máxima, abaixo do definido solenemente, é tal ao ponto de excluir a possibilidade de uma heresia. Em uma outra sede (PIETRO CANTONI, Può la Chiesa variare veramente? Trasmissione, cambiamento, continuità, in: ASSOCIAZIONE CULTURALE CENTRO STUDI ORIENTE OCCIDENTE [a cura di], Romano Amerio, il Vaticano II e le variazioni nella Chiesa cattolica del XX secolo, Convegno di Studi in Ancona, 9 novembre 2007, Fede e Cultura, Verona 2008, pp. 109-135) eu já havia salientado que aqui o caso (já em si mesmo hipotético) assumiria traços realmente “apocalípticos”. “Os eclesiólogos sempre tiveram consciência de que não é possível excluir ‘a priori’, que o Papa, como pessoa privada, possa cair em heresia e neste ponto existem teorias teológica diversas e complexas. Não é necessário, porém esquecer que o nosso ‘Ernstfall’ (caso grave), o nosso caso sério, é realmente “sério”. Tratando-se de um concilio que reuniu quase a unanimidade numérica dos Bispos católicos, com uma adesão total aos documentos promulgados (Também Monsenhor Marcel Lefebvre e Monsenhor Antonio de Castro Mayer, os dois bispos que estão na origem do cisma de Ecône, assinaram TODOS os documentos, sem exceção), não se trataria mais, somente, da, já não “inofensiva”, “quaestio de papa haeretico”, mas de uma, bem mais inquietante, “quaestio de magistério haeretico...” (p. 128-129).
Aqui não posso me eximir de citar Monsenhor Richard Williamson – esperando de não ser acusado de ser um lefebvriano, assim como já fui acusado de ser um “conciliarista” por ter utilizado o termo anti-conciliarismo utilizado pelo Papa Bento XVI... Williamson utiliza um exemplo muito rústico, mas muito claro e – na minha opinião – muito centrado (cfr. http://gloria.tv/?media=29234 consultado no dia 18 de janeiro de 2012). Se a uma mãe dessem um bolo para o seu pequeno (filho), dizendo-lhe: “É muito boa, tem somente o risco, realmente insignificante, que aqui e ali, existam vestígios de veneno. Mas não se preocupe, são somente vozes pouco seguras, suspeitas, nada de certo...”. O que faria a mãe? Jogaria “todo” o bolo na lata do lixo. A metáfora é simples e óbvia, e acredito que até mesmo esmagadora na sua obviedade. Se no Vaticano II, além da nota dogmática que queremos atribuir a ele, além da possibilidade que alguma coisa nele seja também infalível, estamos dispostos a admitir a presença possível de alguma heresia, devemos ter a coragem de tirar desta possibilidade todas as conseqüências eclesiológicas do caso: Todos os Bispos da Igreja católica, em sua qualificante maioria moral, assinaram embaixo de um texto contendo um ensinamento herético. Este é o motivo que impeliu aos nossos “pais na fé” a não admitir a possibilidade de um concílio herético (cfr. pp. 91-97 do meu livro).
Nem é verdade – é talvez inútil (?) - acrescentar, recorrer a um escandalizado: “Mas isto é sedevacantismo, que nós rejeitamos na raiz”! “Se trata de uma posição extremista”. O problema é que a verdade não conhece extremismos de qualquer gênero. Conhece e rejeita somente um coisa: o erro.

 

PARA CITAR


CANTONI, Don Pietro Por que não estou de acordo com Gherardini, De Mattei, Rhonheimer - Disponível em: < http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/diversos/672-don-cantoni-responde-ao-padre-lanzetta >. Desde: 04/06/2014. Tradução: Adryano Stevanelli.

 

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