Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 3)

Ecumenismo
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 Pe. Miguel Nicolau e Pe. José Sánchez Vaquero*

 

VALOR DOUTRINAL DO DECRETO SOBRE O ECUMENISMO

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 1)

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 2)

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 3)

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 4)

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CAPÍTULO II

  

A PRÁTICA DO ECUMENISMO

(nº 5-12)


 

 

A última parte do capítulo anterior, desde o nº 4, c, pode parecer que já se referia à prática do ecumenismo. É verdade. Com isso já se preparava o que vamos dizer neste capítulo II. É inevitável, portanto, alguma repetição.

Na intenção do Secretariado para a unidade, respondendo a uma dificuldade ou emenda que se tinha proposto, expunham-se ainda no primeiro capítulo, princípios do ecumenismo, se bem que de maneira mais concreta. Entendia o mesmo Secretariado, ao responder a esta dificuldade que lhe era proposta, que se não pode fazer uma distinção “matemática”, entre a exposição dos princípios e a explicação da sua prática[1].

 

Todos devem interessar-se pela união (nº 5)


 

5. O cuidado pelo restabelecimento da união diz respeito a toda a Igreja, tanto fiéis como pastores. Afeta cada um segundo a sua própria capacidade, quer na vida cristã de cada dia, quer nas investigações teológicas e históricas. Este empenho manifesta, de algum modo, a união fraterna que já existe entre todos os Cristãos e conduz à perfeita e plena unidade, segundo os desígnios de Deus.

 

O empenho restabelecer a união toca a todos os fiéis da Igreja, pois, todos são membros do Corpo Místico. E não pode um membro desinteressar-se do bem de todo o Corpo; se o Corpo sofre, devem sofrer também todos os membros (Cfr. I Cor, 12, 26). Além disso, embora referido diretamente a Israel, "Deus encarregou a cada um o seu próximo" (Eccl. 17, 12). Se este princípio se deve verificar a respeito do bem comum e geral de todos os homens, muito mais, tratando-se do bem de toda a Igreja, com a qual estamos tão intimamente unidos e vinculados.

O que se diz dos fiéis, com mais razão quanto aos Bispos e Pastores. Já anteriormente se fez referência à parte que cabe aos Bispos, no ecumenismo (art. 4, c). A razão é que, sendo eles, além de povo de Deus e fiéis, lhes corresponde a solicitude de quem foi estabelecido pelo Espírito Santo para apascentar a grei e olhar por todo o rebanho, com desvelo universal (cfr, Atos 20). O princípio dessa solicitude universal e da preocupação pelo bem de toda a Igreja, voltou a ser recalcado na Constituição De Ecclesia do Vaticano II (art. 23). Como o Decreto do ecumenismo, também o futuro Diretório para o trabalho ecumênico, apresentará o modelo das diretrizes episcopais.

A solicitude deve mostrar-se na "vida cristã quotidiana", isto é, nos empreendimentos apostólicos e caritativos e nas obras de cooperação de que se fala no nº 12[2]; sem que, por isso, se exclua o teor geral de todo o conteúdo da “vida cristã de cada dia”.

O cuidado pela união nas investigações teológicas e históricas, cabe, por sua mesma natureza, principalmente, aos cientistas, professores, escritores, etc., que, com os seus estudos, podem abrir o caminho da união. O espírito sereno, aberto e benévolo, que deve presidir a estes estudos, facilitará a senda da compreensão, sem compromisso para a verdade.

Deste modo, os que já são irmãos em Cristo, chegarão a não viver separados, mas unidos como Cristo, deseja. Como diz o Decreto, este cuidado e solicitude, já manifestam um grau de fraternidade e união.

 

Renovação da Igreja  (nº 6)


 

6. Toda a renovação da Igreja consiste, essencialmente, numa crescente fidelidade à sua vocação. Esta é, sem dúvida, a razão do movimento para a unidade. A Igreja peregrinante é chamada por Cristo a esta contínua reforma de que tem sempre necessidade enquanto instituição humana e terrena. Assim, se em virtude das circunstâncias dos tempos, algumas coisas foram menos cuidadosamente observadas quer nos costumes, quer na disciplina eclesiástica, quer mesmo no modo de enunciar a doutrina – o que se deve desde logo distinguir do próprio depósito da fé – sejam reta e devidamente restauradas, na altura devida.

Esta renovação te, pois, uma grande importância ecumênica. Os vários modos, porém, mediante os quais esta renovação da vida da Igreja está já a ser efetuada – tais como o movimento bíblico e litúrgico, a pregação da Palavra de Deus e a catequese, o apostolado dos leigos, as novas formas de vida religiosa, a espiritualidade do matrimônio, a doutrina e a atividade da Igreja no campo social – devem ter-se como garantias e auspícios que felizmente preconizam os frutos progressos do ecumenismo.

 

Apresentar o rosto autêntico da Igreja. Se na Igreja, dia a dia, se manifesta cada vez mais a sua verdadeira face, se na hierarquia, nos clérigos e simples fiéis, a caridade verdadeira, a humildade sincera, a pobreza e a simplicidade evangélica, a ausência de ambições e aumentos egoístas, se revelam sempre crescentes...; se todos (porque depende da cooperação de todos nós), correspondemos ao desejo de João XXIII, apresentando o verdadeiro rosto da Igreja, de modo que se possa dizer: “esta é a verdadeira imagem da Igreja...” será então mais fácil que todos os cristãos a reconheçam e queiram, ipso facto, unir-se a ela. Foi o que João XXIII pretendeu com o Concílio, em ordem a conseguir a unidade dos cristãos.

A unidade seria então efeito, não das disputas nem das apologias, mas das obras e das ações. Seria resultado de uma purificação e renovação internas, dos católicos.

Não deve surpreender o emprego da palavra renovação da Igreja, ou reforma da Igreja. É freqüente encontrar esta palavra nos documentos dos Concílios[3]. João XXIII falava do Concílio Ecumênico Vaticano II, “para chegar a uma reta renovação dos costumes do povo cristão”[4]. Inocêncio III afirmava diante dos Padres do Concílio Lateranense IV (a. 1215) que o tinha convocado “para reformar a Igreja universal...”[5].

A Igreja, ainda que é santa, pelo seu Esposo, pela sua doutrina, pelos sacramentos e por muitos membros santos que a constituem, contudo, é composta de homens; e “enquanto instituição humana e terrena, tem necessidade perene de contínua reforma”. O Decreto faz sua esta idéia, tirada das palavras de Paulo VI à Cúria Romana[6].

É possível que no decorrer dos tempos e segundo as diversas circunstâncias, tenha havido um certa relaxação dos costumes; é possível que tenha havido menos cuidado na observância da disciplina eclesiástica; tudo isto faz parte da debilidade humana e terrena, por isso, torna-se necessário renovar e reformar convenientemente no devido tempo.

Mas há mais: a reforma e renovação, tornam-se também necessárias, no modo de enunciar a doutrina. Mas isto deve ser retamente entendido. Porque, “uma coisa é o depósito da fé, ou seja, as verdades contidas na nossa veneranda doutrina, outra, o modo como se enunciam estas verdades, ainda que conservando o mesmo sentido e o mesmo conteúdo”[7]. Quer dizer que no modo de enunciar a doutrina, adotado pela Igreja, não se tergiversou ou adulterou o sentido autêntico das verdades do depósito da fé. O contrário, seria cair no relativismo dos conceitos, condenado na Humani generis[8]. No que diz respeito à conservação e exposição reta das verdades do depósito da fé, a Igreja foi e será sempre fiel à sua missão[9].

Mas está perfeitamente conforme, um modo de enunciar a doutrina que seja mais completo, que tenha mais em conta os pontos de vista dos outros, que se adapte mais à sua mentalidade, etc. Este ponto será tratado no artigo 11º.

Frutos da renovação. A renovação da Igreja já deu os seus frutos ou pelo menos, prognosticou-os. Esta renovação facilitará o movimento ecumênico Esta renovação facilitará o movimento ecumênico. Referimo-nos, como se refere o Concílio, primeiro ao movimento bíblico. Quem duvida que, graças ao estudo mais assíduo, mais profundo e aberto, da Bíblia, por parte dos católicos e dos protestantes, se facilitará a compreensão mútua e se encontrarão novos pontos de contato?

Também o movimento litúrgico, o maior apreço pelos salmos, para a oração, o recorrer às formas mais acrisoladas da vida cultual, segundo a tradição antiga, procurará o encontro com as formas da Liturgia oriental e a oração comum, com as palavras inspiradas por Deus[10]. A pregação da Palavra de Deus, isto é, a homilia, promoverá o conhecimento da Escritura entre os católicos. A catequese perfeita, o apostolado dos leigos, as novas formas, mais ágeis, de vida religiosa, a espiritualidade matrimonial, a atividade social e a doutrina social da Igreja, numa palavra, tudo o que contribui para rejuvenescer a Igreja e enriquecê-la com novas expressões de vida... ajudará a dar o grande passo ecumênico e a que a Igreja seja mais amada e encontrada pelos irmãos separados.

 

Conversão do coração  (nº 7)


 

7. Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. Pois os desejos de unidade nascem e amadurecem da renovação do espírito[11], da abnegação própria e do pleno exercício da caridade. Por isso, devemos implorar do Divino Espírito a graça de uma sincera abnegação, humildade e mansidão em servir e de fraterna generosidade de alma para com os outros. “Peço-vos, portanto, - diz o Apóstolo das gentes – eu, prisioneiro no Senhor, que vos comporteis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros com amor e esforçando-vos solicitamente por conservar a unidade do Espírito, no vínculo da paz” (Ef. 4, 1-3). Esta exortação diz respeito sobretudo àqueles que foram elevados à sagrada ordem a fim de que seja continuada a missão de Cristo, que “não veio para ser servido mas servir”(Mat. 20,28), entre nós.

Também às faltas contra a unidade se pode aplicar o testemunho de S. João: “Se dissermos que não pecamos chamamos-lhe de mentiroso e sua palavra não está em nós” (I Jo. 1, 10). Por isso pedimos humildemente perdão a Deus e aos irmãos separados, como também nós perdoamos aos que possam ter ofendido.

Lembrem-se todos os fiéis cristãos de que tanto melhor promoverão, ou antes, exercerão a união dos Cristãos, quanto mais se esforçarem por levar uma vida mais conforme ao Evangelho. Pois, quanto mais estiverem unidos em estreita comunhão com o Pai, o Verbo e o Espírito, tanto mais íntima e facilmente poderão aumentar a mútua fraternidade.

 

Não é raro, em autores ascéticos do século XVI, atribuir as divisões religiosas da época “aos grandes pecados com que irritamos a justiça divina”. Não só os da parte oposta. Também os de dentro. Vem aqui a propósito o dito do Senhor: “O que está sem pecado atire a primeira pedra” (Jo. 8, 7).

A divisão entre os cristãos, é claro que não procede do Espírito de Deus. As suas causas facilmente são, amor próprio, soberba, impaciência... E, mesmo admitindo que a razão e o direito estejam de uma parte, não basta ter direito e ter razão para justificar que se olhe, impassivelmente, uma separação. Ainda o que tem direito, deve proceder com mansidão, com calma, sem exacerbar o adversário, sem precipitar os acontecimentos; numa palavra, com caridade e humildade. Por isso, facilmente num litígio e neste que hoje dói aos cristãos, todos podemos dizer “mea culpa”.

É verdade que a Igreja é “santa”. Dizemo-lo no Credo. Mas isto, não quer dizer que todas as ações de seus membros sejam santas; nem mesmo as dos hierarcas da Igreja, ainda que sejam os Papas. Tanto na ordem privada como na ordem social e pública, podem não proceder segundo as exigências da virtude e da prudência. A história os julga.

Não queremos, contudo isto, examinar agora as causas e as responsabilidades das divisões que hoje afligem os cristãos. Primeiro, porque o que realmente importa, não é saber quem teve mais culpa, mas que nós, cristãos, nos unamos verdadeiramente. Vamos deixar a história das causas, como se exprimiu João XXIII e vamos a unir-nos. Segundo, porque, mesmo que procurássemos conhecer todo o processo histórico da separação, a urdidura de causas e concausas, ocasiões e circunstâncias, parece ser tão complicada e estar tão emaranhada que não sei se chegaríamos a resultados claros e positivos.

Por isso, o Concílio confessa as culpas que tenha havido por parte dos católicos. “Porque, se dissermos que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso e a sua palavra não está em nós” (1Jo. 1, 10). O que fez já Paulo VI, pedindo perdão na inauguração da segunda Sessão do Concílio[12] e mais tarde (17 de Outubro de 1963), no Discurso aos “Observadores” de outras confissões[13], repete-o agora solenemente o Decreto, em nome de toda a assembleia, pedindo humildemente perdão a Deus e aos irmãos separados; e ao mesmo tempo perdoando também aos que nos ofenderam[14].

O ecumenismo exige uma conversão do coração. Os desejos de unidade crescem à medida que nos renovamos no espírito (cfr. Ef. 4, 24), com uma abnegação maior do próprio egoísmo e de nós mesmos, com uma caridade mais ampla e autêntica. Já S. Paulo o recomendava para as relações com os demais e repetimo-lo hoje na epístola da “Missa para a unidade dos cristãos” e neste Decreto do Ecumenismo. “Peço-vos encarecidamente – dizia S. Paulo – eu, prisioneiro no Senhor [estava na prisão quando escrevia aos Efésios] que andeis dum modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros com caridade, solícitos em conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef. 4, 1-3).

Não corresponderia ao pensamento do Apóstolo quem em tudo se considerasse superior aos outros.

Pelo contrário, S. Paulo recomenda que “cada um considere os outros como superiores” (Filip. 2, 3. Ecli. 3, 20). A caridade sabe dizer as coisas de tal modo que não ofendam. Sabe evitar o que é áspero nas ideias e na linguagem. Segundo a descrição do Apóstolo “a caridade é paciente e bondosa, é benigna, a caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não faz maus juízos; não folga com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre” (1 Cor. 13, 4-7). Se todas as discussões e todos os escritos tivessem sempre tido como norma estas propriedades da caridade!

Toda esta conversão do coração, este florescimento da humildade e da caridade, devem tê-lo como especialmente dirigido a si, os sacerdotes e clérigos, destinados a desempenhar as funções sagradas e a continuar a missão de Cristo. Lembrem-se que não veio “para ser servido, mas para servir” (Mt. 20, 28).

E com a caridade, o crescimento em Cristo (Ef. 4, 15). E com o crescimento e o adentrar-se mais em Cristo, não será difícil encontrarmo-nos todos em Cristo.

Por isso, o caminho da unidade é o da caridade. A este propósito escreveu umas belas palavras sua Beatitude o Patriarca católico de Antioquia e de todo o Oriente, Paulo-Pedro Meouchi, numa carta pastoral, em 2 de Fevereiro de 1961:

“Os cristãos dividem-se e repartem-se em seitas e heresias, na medida em que se afastam da sua sublime vocação. Apartam-se da unidade, na medida em que se esquecem da caridade. O caminho para a unidade começa hoje, amanhã e sempre, a partir de três princípios:

Uma abnegação e uma humildade muito grandes. O Cristão nunca mede a doutrina da Igreja pela medida do seu talento.

Rejeitando totalmente o individualismo. Não vê jamais a Igreja segundo a imagem do seu nacionalismo. Despojando-se da presunção. Não olha a Igreja à luz do próprio orgulho.

Caminhar pelo caminho da Unidade, custe o que custar, é tornar-se disponível à graça de Cristo. Os cristãos nunca progredirão no caminho da Unidade se não tomarem plena consciência dos seus valores sagrados e da necessidade de não olhar aos seus interesses individuais”[15].

Importa, pois, aproximar-se cada vez mais da vida perfeita, segundo o Evangelho. Quanto mais cada um de nós se unir com Deus, mais fácil será encontrarmo-nos todos em Deus.

 

Ecumenismo Espiritual  (n. 8).


 

8 a. Esta conversão do coração e santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos Cristãos devem considerar-se como a alma de todo o movimento ecumênico e podem justamente chamar-se ecumenismo espiritual.

É, com efeito, costume entre os católicos, recitar frequentemente aquela oração pela unidade da Igreja, que o próprio Salvador, na vigília da sua morte dirigiu ardentemente ao Pai: “Que todos sejam um” (Jo. 17, 21).

Em algumas circunstâncias especiais, por exemplo quando se prescrevem orações “pela unidade” e em reuniões ecumênicas, é lícito e até desejável que os Católicos se associem na oração aos irmãos separados. Tais preces comuns, são, sem dúvida, um meio muito eficaz para pedir a graça da unidade e uma genuína manifestação dos vínculos com que os Católicos estão ainda ligados aos irmãos separados: “Pois, onde estão dois ou três reunidos, em meu nome, aí estou no meio deles” (Mt. 18, 20).

 

Entende-se por ecumenismo espiritual, a conversão do homem interior, o seu esforço por levar vida santa e se unir mais com Deus, as suas preces e sacrifícios pela unidade.

Se tivéssemos de esperar a união, dos nossos projetos, meio humanos, diálogos, estudos, etc, ver-nos-íamos condenados ao fracasso.

Porém, ''tudo é possível ao que crê'' (Mc 9,22), ao que ora com fé e confiança, fiado na Palavrado Senhor. Trata-se aqui de um desejo que corresponde ao desejo do Senhor: a unidade dos que crêem n'Ele. E pedimo- -- em nome do Senhor, reunidos em seu nome (Cfr. Jo 16,23; Mt18,20)... O Oitavário de orações pela unidade (18 a 25 de janeiro), iniciado pelo, então (1908) pastor anglicano, depois sacerdote católico, Pe Paulo de Graymour (Wattson), Oitavário acolhido com simpatia pela Igreja Católica por São Pio X (1909), que se propagou em muitas outras Igrejas; a novena do Pentecostes, que recorda a perseverança dos Apóstolos em oração com Maria, Mãe de Jesus (At. 1,14); os sacrifícios em prol da unidade; a renovação de vida autenticamente cristã..., tudo contribuirá para mover o coração de Deus, a fim de que Ele torne possível, o que aos homens é impossível. 

De modo nenhum há inconveniente que, em tais circunstâncias de orações pela unidade, ou em reuniões ecumênicas e, ''em certas circunstâncias especiais''[16],se dirija a Deus uma oração comum de cristãos de confissões diferentes. ''É lícito e mesmo desejável'' – diz o Concílio a esse respeito, a oração em comum, tem promessa particular do Senhor (Mt 18,20), quando dois ou três estão reunidos em seu nome. Não resta dúvida que o pedir a unidade corresponde ao desejo de Cristo e é uma oração que se pode fazer em seu Nome. Além disso, esta oração em comum, significa que ainda há laço que nos unem em Cristo.

 

''Communicatio in sacris'' (nº8b)


 

8b. Todavia, não se deve considerar a comunhão nas coisas sagradas como meio a usar indiscriminadamente para o restabelecimento da unidade dos Cristãos. Esta comunhão depende sobretudo de  dois princípios: da significação da unidade da Igreja e da participação nos meios da graça. A significação da unidade proíbe algumas vezes a comunhão. A necessidade de procurar a graça, por vezes, recomenda-a. Quanto ao modo concreto de agir, decida prudentemente a autoridade episcopal local, tendo em contatodas as circunstâncias de tempo, lugar e pessoas, a não ser que outra seja determinada pela conferência episcopal, segundo os próprios estatutos, ou  pela Santa Sé.

 

Advirta-se, desde o princípio, que a comunhão in sacris, se refere, diretamente, à participação em qualquer culto.[17]

Celebrar conjuntamente os ofícios litúrgicos, não pode ser um meio lícito ou conveniente de maneira indistinta, para se chegar à unidade que se procura. Pois, ofício litúrgico é o mesmo que serviço oficial e público de culto. E neste serviço oficial, costuma haver uma profissão de fé, específica da respectiva confissão, e por isso, a participação ativa num culto alheio, seria uma profissão de fé implícita, no que um tem por erros específicos da outra confissão. Além de que estes ''erros'' facilmente se manifestam nas orações e nas leituras do culto a que se atende ou assiste ativamente. Por isso mesmo, tal participação ativa num culto falso é intrinsecamente contrária à profissão e manifestação da unidade dafé. E muito mais evidente é a maldade intrínseca da assistência ativa, se internamente houver aprovação do culto falso que se realiza.

Há ainda outra razão para não se aprovar tal participação ativa nos cultos das outras confissões, mesmo que internamente se não aprovem. É que o culto é considerado como um sinal externo da unidade e harmonia do Corpo Místico de Cristo. Unidade e harmonia que apareceriam obscurecidas ou veladas, se no culto da verdadeira religião cristã, houvesse tal mistura de toda a classe de confissões. São evidentes, por outra parte, os perigos de indiferentismo religioso que produziria essa promiscuidade de confissões.

Receber um sacramento que internamente se não tem por tal, administrado por sacerdotes de outra confissão, seria uma ação que equivaleria a expressar uma crença na suposta validade de tal ação sacramental. Já se vê que, pela sua mesma natureza, é professar o que internamente se tem por erro e falso e cremos que seria uma ação intrinsecamente má.

Por isso, a assistência ativa ao culto acatólico, aprovando internamente esse culto ou recebendo nele supostos sacramentos, em nenhuma hipótese se pode justificar. São atos, por si mesmos, intrinsecamente contrários à reta norma moral.

Outra coisa seria, se se admite que os sacramentos são administrados validamente e se professam verdadeiros artigos de fé no culto, ou se ora com aquelas orações dignas de serem recitadas por todos. Nesse caso, a assistência ativa, não poderá dizer-se contraditória com aprópria consciência, nem intrinsecamente má. Mas, de ordinário, considerar-se-á nisso, uma espécie de aprovação do outro culto e é o que aparecerá aos olhos de muitos, seguindo-se daí o escândalo para os outros. Fora o perigo de indiferença religiosa para o próprio.

Por isso, as razões que em tais casos justifiquem uma assistência ativa, têm de ser razões verdadeiramente de peso e removendo os perigos próprios e o escândalo que daí pode provir.

A recepção de um sacramento das mãos de um ministro acatólico seria participação ativa no culto deste; mas o receber meramente um sacramento válido não é necessariamente professar uma religião falsa, nos seus erros específicos.

Poderia entender-se como querer servir-se dos sacramentos instituídos por Cristo, que são válidos em qualquer hipótese, mesmo que o ministro seja cismático ou herege a aproveitar-se de algo, objetivamente válido. Mais: de algo que pertence, de direito, à Igreja verdadeira, ainda que retido por outros. Daí, o conceber-se que possa haver casos que tornem lícita a recepção de um sacramento necessário, das mãos de um ministro acatólico. Tal seria, em caso de extrema necessidade, o batismo, a penitência, para a qual a Igreja mesma, concede justificação, em perigo de morte de um cristão, a qualquer sacerdote validamente ordenado.

Também se concebe que possa haver razões que justifiquem a recepção das mãos de um acatólico, outros sacramentos, pela grande utilidade que nisso haveria, por exemplo, o viático, que é de preceito divino, em perigo de morte.

Mas em tais casos tornar-se-ia necessário precaver qualquer perigo de indiferença e inconstância religiosa própria, e afastar o escândalo que causaria aos fiéis.

Se a presença nos ritos acatólicos não tem o caráter de participação ativa, mas de presença de mera cortesia, como seria, por exemplo, em cerimônias fúnebres ou de caráter patriótico e nacional, ou se a assistência é só a título de ilustração conveniente, para conhecer o desenrolar de tais atos, então, já se vê que não há profissão implícita de erro e que pode haver razões, evitando o escândalo e o perigo de inconstância religiosa ou indiferentismo, para permitir tal presença ou assistência. A mera presença, por uma causa razoável, sem participação ativa, pode permitir-se e o costume de fato o permite, em algumas regiões.

E vice-versa. A assistência ou mera presença dos acatólicos, nos atos de culto católico, é permitida; como de fato o vemos, nas funções da Basílica Vaticana a que assistem embaixadores e membros do corpo diplomático que professam religião diversa da católica. E ultimamente, vimo-lo permitido, admitindo observadores acatólicos, mesmo nos atos estritamente litúrgicos do Concílio Vaticano II. Fora as razões de cortesia que possa haver, para admitir os acatólicos a tais atos litúrgicos, compreende-se que essa assistência pode ser uma excelente ocasião de conhecerem mais a fundo e em concreto a religião católica; o que, em qualquer hipótese, é de desejar. A simples assistência dos acatólicos às funções litúrgicas, católicas, não tem necessariamente o sentido de unidade e comunhão religiosa com os católicos.

E se isto é válido para os atos mais estritamente litúrgicos e oficiais, como são, a celebração da Santa Missa e administração dos sacramentos, muito mais se se trata de admitir a outros atos, litúrgicos sim, mas em grau menor, como seriam as bençãos e sacramentais, exéquias, preces em comum. Seria sim, de desejar e exigir, que, tratando-se de atos diante do Santíssimo Sacramento, fosse observado por todos os não crentes, tal respeito e reverência, de modo a não ferirem os sentimentos dos católicos. A simples cortesia, assim o exige.

Como nisto, segundo as regiões, pode haver grande variedade de conveniências e inconveniências, o Concílio determinou que ''sobre o modo concreto de atuar, atendendo a todas as circunstâncias de tempo, lugar e pessoas[18], determine a autoridade episcopal do lugar, a não ser que o estabeleça de outra forma a Conferência Episcopal, segundo os próprios estatutos, ou a Santa Sé''. É uma norma de grande amplitude. As últimas palavras, sobre a autoridade da Conferência Episcopal e da Santa Sé, foram acrescentadas à última hora, por causa dos Padres que desejavam uma maior precisão no texto[19].

No texto conciliar que é muito breve, numa questão complexa, não se dão mais explicações, pois serão dadas no Diretório geral, que o Secretariado está a preparar[20].

Contudo, o texto do Decreto, aprovado pelo mesmo Concílio sobre as Igrejas Orientais (n° 26-29) é mais explícito e claro acerca desta ''participação in sacris''.

Recordemo-lo brevemente:

''26. A participação nas coisas sagradas que ofenda a unidade da Igreja ou inclua adesão formal ao erro ou perigo de errar na fé, de escândalo e indiferentismo, é proibida pela lei divina[21]. Mas a praxe pastoral demonstra com relação aos irmãos orientais, que se podem e devem considerar as várias circunstâncias de cada pessoa, em que, nem se prejudica a unidade da Igreja, nem há perigos a evitar, mas urgem a necessidade de salvação e bem espiritual das almas. Por isso, a Igreja Católica, segundo as circunstâncias de tempo, lugar e pessoas, empregou muitas vezes e emprega ainda, um modo mais suave de agir, oferecendo a todos, os meios de salvação e o testemunho da caridade entre os cristãos, através da participação nos sacramentos e em outras funções e coisas sagradas. Considerando isto, o Sagrado Concílio ''para que não sejamos, pela severidade da opinião, impedimento para os que se salvam''[22] e para fomentar cada vez mais a união com as Igrejas Orientais separadas de nós, estabelece o seguinte modo de proceder''.

''27. Supostos os mencionados princípios, podem-se conferir aos Orientais que de boa fé se encontram separados da Igreja Católica, se espontâneamente os pedem e estão bem preparados, os sacramentos da Penitência, Eucaristia e Unção dos Enfermos. Mais ainda. Também aos católicos é lícito pedir os mesmos sacramentos ao ministros acatólicos, em cuja Igreja haja sacramentos válidos, sempre que a necessidade ou uma verdadeira utilidade espiritual o aconselhem e o acesso a um sacerdote católico se torne física ou moralmente impossível[23].

"28. Supostos igualmente os mesmos princípios, permite-se por justa causa, a participação em funções, coisas e lugares sagrados entre católicos e irmãos separados''[24].

 "29. Esta norma mais mitigada de participação nas coisas sagradas com os irmãos das Igrejas Orientais separadas, é confiada à vigilância e discernimento dos hierarcas locais, de forma que, aconselhando-se entre si, e se convier, ouvindo também os hierarcas das Igrejas separadas, moderem com oportunas e eficazes prescrições e normas, a convivência dos cristãos''.

 

O conhecimento dos irmãos (n° 9)


 

9. É preciso conhecer a mente dos irmãos separados. Para isso, é necessário o estudo, que deve ser feito segundo a verdade e com ânimo benévolo. Os Católicos devidamente preparados devem adquirir melhor conhecimento da doutrina e da história, da vida espiritual e litúrgica, da psicologia religiosa e cultura própria dos irmãos. Muito ajudam, para esse fim, as reuniões de ambas as partes para estudar principalmente questões teológicas, onde cada um trate de igual para igual, contanto que os que nelas participam, sob a vigilância dos superiores, sejam verdadeiramente peritos. Por este diálogo se conhecerá também mais claramente, qual é a verdadeira situação da Igreja Católica. Do mesmo modo, se virá a conhecer melhor o pensamento dos irmãos separados e ser-lhes-á exposta com maior precisão nossa fé.

 

Para chegar à unidade de perspectivas e sentimentos, é necessário conhecer-se. E para se reconhecer, depois de tanto tempo de separação, é preciso estudar a doutrina religiosa e também a história religiosa dos irmãos separados. Quem diz a história religiosa, diz a vida espiritual, litúrgica e cultual[25], a psicologia religiosa e, em geral, a cultura dos que professam outras confissões. Foram estes estudos e o de ejo de promover o conhecimento dos Orientais que levaram Pio XI à fundação do Instituto Oriental de Roma. Mas será sempre necessário que este estudo se realize com simpatia e compreensão, isto é, com espírito benévolo e em busca da verdade. A benevolência e o amor, facilitam o caminho do conhecimento. Inculcava-o Pio XII com as seguintes palavras: “Aplana certamente o caminho, para conseguir esta meta, a investigação serena, sem ira nem paixão, com que hoje, mais do que em tempos passados, costumam recompor-se e ser examinados os fatos antigos”[26].

Aproximações. Este conhecimento dos irmãos separados será oportuno para comprovar certas aproximações na unidade da fé; para os católicos será motivo de alegria verificar como, pouco a pouco, se vão deixando pontos de vista e posições que eram tidas como características de algumas confissões.

Hoje sabemos que alguns protestantes já admitem uma justificação no homem, mediante santidade interna e não só por uma mera imputação externa de justiça de Cristo. Aprecia-se mais entre eles o valor da Tradição e não só o da Escritura, para chegar ao conhecimento e aprofundamento da verdade revelada. Alegra-nos muito este conhecimento do valor do tradicional, que já era apreço comum e ponto de contato entre o catolicismo e os ortodoxos orientais. Agrada-nos tal posição, pois, é impossível que o homem se desligue psicologicamente dos seus antepassados; e, com o reconhecimento da Tradição, afrima-se o peso e a leia da História.

Outro sinal da aproximação de que vimos falando, é que, se antes muitos protestantes (Harnack) não reconheciam a autenticidade da perícope do Primado de Pedro (Mt 16,18), e se depois, críticos protestantes a passaram a incluir como autêntica, nas edições dos Evangelhos (Nestle): vemos hoje que um ilustre exegeta protestante (Oscar Cullmann) reconhece, não só como autênticas tais palavras,mas além disso, como expressivas da promessa que contém, do Primado para Pedro,ainda que Oscar Cullmann não admite que este primado se tenha continuado na Sé de Roma.

Lemos também, com satisfação, recentemente, como o culto à Mãe de Jesus, de quem falam os Livros Sagrados (Cfr Lc 1,48), tem sido olhado com reverência pelos protestantes e como um deles escrevia, com encarecimento, sobre os milagres de Lourdes. E lemos com íntimo regozijo uma meditação sobre Maria, sinal de misericórdia, que faz parte de um livro intitulado Maria, Mãe do Senhor, figura da Igreja, que publicou ainda há pouco (1962) o teólogo ecumenista, superior da comunidade protestante de Taizé, Max Thurian[27].

É também sintomático o apreço dos conselhos evangélicos que se nota em alguns protestantes de hoje. Conhecíamos a vida monástica dentro da Ortodoxia oriental e no Anglicanismo. No Protestantismo, se nos começos da reforma de Lutero se encontra nos seus partidários uma aversão não dissimulada contra os chamados conselhos evangélicos, e contra os religiosos que os praticavam com voto[28], não podemos ocultar hoje a nossa profunda simpatia pela comunidade protestante de Taizé, que honrou a prática dos conselhos de pobreza, castidade e obediência.     Querem viver o Evangelho mais intensamente. A vida desta Comunidade, sob a direção de seu Prior, Roger Schutz, está concebida como uma vida de oração, sacrifício e ação, em prol da unidade dos cristãos e de tudo o que signifique reconciliação entre eles, entre todos os que andem desavindos de em qualquer das esferas, familiar, social, religiosa. Nobre empreendimento, que corresponde, evidentemente, ao pensamento do Mestre: ''Que eles sejam um, para que o mundo conheça que Tu me enviaste'' (Jo 17,21).

 

Diálogo entre peritos


 

Para estas aproximações e, sobretudo, para o conhecimento dos irmãos separados, ajudará o diálogo com eles.

Estas reuniões ecumênicas, em que ambas as partes tratam principalmente questões teológicas, servirão para desfazer preconceitos e procurar um conhecimento mais exato das respectivas doutrinas. O regime de tais diálogos é o da igualdade das duas partes[29], como condição básica para um verdadeiro diálogo, a que se não vai diretamente para vencer, mas para ''se informar''. Requer-se, sim, para que o diálogo seja frutuoso e possamos conhecer melhor a mente dos separados e expor convenientemente, a nossa fé, que o s interlocutores sejam verdadeiramente ''peritos''. Se não, será mais fácil criar confusão do que receber luz.

O Arcebispo de Ruão, Mons. Martin, Relator deste esquema no Concílio, expressava-se deste modo numa entrevista: ''No meu pensamento – e no dos promotores do verdadeiro ecumenismo, tanto duma parte como doutra – trata-se aqui do diálogo entre representantes qualificados das diversas confissões. A questão, para já, não pode ser de diálogos multiplicados entre fiéis e fiéis. Tais diálogos correriam o risco, na hora atual, de criar mais confusão do que luz''[30]. Nem bastará a ciência teológica; requer-se o modo de expô-la, claro e adaptado à mentalidade dos que participam no diálogo. Requer-se, além disso, aquela prudência, discrição e caridade, que está na base de todo o diálogo.

Por isso, compreende-se que, se sempre e em todas as ocasiões se torna necessária a vigilância dos Bispos, é-o aqui ainda mais, para que sejam pessoas realmente competentes e preparadas as que empreendam tais diálogos; e estejam dispostos a ouvir e seguir as diretrizes da Hierarquia[31].

Querer iludir ou passar por cima desta vigilância dos Pastores e proceder por conta própria, na sua ausência, não seria sinal do Espírito de Deus,que inspira a obediência e a docilidade aos superiores; nem o dialogante, nesse caso, poderia esperar o auxílio abundante da graça de Deus.

Os objetivos do diálogo ecumênico, descrevia-os do modo seguinte, na Aula Conciliar, Mons. Heenan, Arcebispo de Westminster e Presidente do Comitê inglês para a Unidade. No diálogo ecumênico – dizia – não convém ter diante dos olhos as almas individuais. Deve ser feito, antes demais, entre comunidades, isto é, entre a Igreja Católica e as Igrejas cristãs, não-católicas. Muito menos se deve procurar – acrescentava – fazer prevalecer os próprios argumentos. O diálogo deve ser um desejo sincero de compreender as crenças dos nossos irmãos separados. Deve apresentar-lhes também e explicar-lhes a doutrina católica. É um encontro de irmãos e não de inimigos. Tem a sua raiz na confiança mútua e numa caridade perfeita. Não deve ser uma tentativa, nem de uma parte nem de outra, para fazer prevalecer os próprios argumentos.

Se o objetivo último da atividade ecumênica é, naturalmente, a unidade visível de todos os cristãos, na única Igreja de cristo, o objetivo imediato é a compreensão e caridade mútuas, entre aqueles que estão unidos pelo batismo, mas separados pela doutrina. Para já, temos de trabalhar com este objetivo; o objetivo último, não está ainda ao nosso alcance[32].

Para promover o entendimento mútuo, entre católicos e protestantes – dizia Mons. Jaeger, Bispo de Paderborn (Alemanha) – é preciso designar teólogos que tenham um conhecimento profundo da Escritura e da Tradição e que ao mesmo tempos, conheçam bem a doutrina dos irmãos separados (na Aula Conciliar, 22 de Novembro de 1963). Não basta a boa vontade. Uma experiência de 17 anos, no ecumenismo, permite-me afirmá-lo. Aludia aos trabalhos do Instituto Moehler, em que católicos e protestantes estudam as questões em controvérsia[33].

 

A Teologia sob o aspecto ecumênico (n°10 a)


 

10 ª O ensino da sagrada teologia e das outras disciplinas, sobretudo históricas, deve ser feito também sob o ponto de vista ecumênico, para que correspondam o melhor possível à verdade dos fatos.

 

Todas as disciplinas teológicas, isto é, a Teologia fundamental e em particular o tratado de Ecclesia e os tratados  da Tradição e da Sagrada Escritura, a Teologia dogmática, a sacramental, a Liturgia, o Direito, a Moral... podem ensinar-se tendo em conta o aspecto ecumênico que nelas se contém e a s verdades que se relacionam com o ecumenismo. Será uma maneira de atender a esta Teologia vital de que a Igreja precisa, sem necessidade de multiplicar as já múltiplas disciplinas.

A História tem também títulos particulares de contato com o ecumenismo e, sem ira nem paixão, tem de nos elucidar sobre a verdade histórica dos fatos, para que, cada dia mais, o estudo desta cadeira corresponda melhor à verdade.

Na maneira de apresentar as conclusões destes estudos, ou de as investigar, será melhor que se evite não somente a polêmica, mas também que se afaste do modo polêmico que facilmente ofende e não corresponde à benevolência que deve reinar entre irmãos nem às condições pacíficas do nosso tempo. A apresentação objetiva e serena dos fatos e dos argumentos, cremos que terá mais eficácia, que as discussões que se podem promover. Hoje prefere-se não falar de ''adversários'' àqueles que temos que demolir e vencer, mas falar geralmente de história da questão de que se trata.

 

Primeiro formar os sacerdotes (n° 10 b)


 

10b. É muito importante, que os futuros pastores e sacerdotes estudem a teologia bem elaborada deste modo e não em sentido polêmico sobretudo nas questões que incidem sobre as relações entre os irmãos separados e a Igreja Católica. Pois da formação dos sacerdotes, depende em especial a necessária instrução e formação espiritual dos fiéis e dos religiosos.

 

Para formar os fiéis no espírito ecumênico, deve-se primeiro formar cuidadosamente os sacerdotes e futuros pastores. Este princípio do Concílio, com respeito ao Ecumenismo é o mesmo que na Constituição litúrgica aconselhava começar pela formação litúrgica do clero (art. 14-18).

Assim o seminarista ou teólogo, pode ser formado teologicamente dentro da mentalidade ecumênica a que antes nos referimos, e todas as disciplinas teológicas e históricas podem trazer a sua contribuição, em particular dentro da atual legislação escolar, para as Faculdades e Seminários, a Teologia oriental e a Patrologia. A celebração anual acadêmica do dia do Oriente Cristão, preceituada desde os tempos de Pio XI, pode ser cada ano um despertar de novos entusiasmos, a fim de servir com o estudo e a oração a causa da unidade[34].

A importância das orações pela unidade, é pois evidente, tanto o Oitavário pela união das Igrejas (18-25 de Janeiro) como noutras ocasiões.

 

Nos países de missão (n° 10c)


 

10c. Igualmente os católicos empenhados em obras missionárias nas mesmas terras em que trabalham outros cristãos, devem conhecer, hoje sobretudo, os problemas e os frutos que surgem do ecumenismo no seu apostolado.

 

Quando os católicos trabalham em países de missão, onde evangelizam também outros cristãos, tem então particular importância para evitar roces, atritos, escândalos e dificuldades, conhecer e estimar convenientemente, as soluções que o autêntico ecumenismo pode inspirar.

Quanto à evangelização e conversão dos cristãos não católicos nos países de missão, assim como nos mesmos países cristãos não católicos, há diferentes maneiras de conceber o reto modo de proceder.

Mons. Van Cauwlaert, Bispo de Inongo (Congo), na carta pastoral ao clero e fiéis da sua diocese descreve uma maneira, na qual depois de expor os princípios do ecumenismo, indica aos seus missionários normas de ação prática.

''Peço-vos dizia-lhes (Janeiro de 1964) – que celebreis alguma reunião para buscar o modo de suscitar na vossa Missão, por ocasião das orações pela unidade, o espírito ecumênico e o modo de promover contatos com os protestantes do vosso território, a fim de obter a sua colaboração para este apostolado. Dir-me-ão como já me fizeram notar alguns pastores que em geral existem muito boas relações entre os cristãos e os nossos católicos. Porém o verdadeiro espírito ecumênico, pede muito mais que relações de boa vizinhança. Pede que nos preocupemos e que façamos um esforço generoso para realizar a unidade e para fazer desaparecer o escândalo das nossas divisões. Além disso, as contínuas relações com nos nossos irmãos protestantes, sem este espírito ecumênico como base e motivo principal, favoreceriam como o demonstra a experiência, o indiferentismo religioso, ou ao menos uma grande confusão no que toca à fé... Não podemos renunciar a esta fé sem deixar de ser católicos. Não podemos para facilitar a união escondê-la, sem enganar àqueles com quem nos queremos unir. À primeira vista os nossos irmãos separados acham insuportável a pretensão da Igreja Católica de ser a única possuidora do monopólio da plenitude da unidade visível em Cristo, tal qual Cristo a quis, temos pois que compreendê-los. Só uma atitude humilde e aberta, como a do Papa João XXIII, pode fazer-lhes compreender que guardamos este dom da unidade, não para dominar, mas para os servir, como um bem que não pertence só a nós, mas do qual é preciso que participem todas as Igrejas''.

Por conseguinte o bispo de Inongo deseja promover as relações fraternas entre todos os cristãos:

''Podemos aproximar-nos deles – afirma – sem receios ou suspeitas. Desejamos sinceramente que a as suas Igrejas sejam fervorosas e que os seus cristãos sejam fiéis à sua fé. A unidade e a comunhão perfeitas não se realizarão com igrejas em decadência e com cristãos tíbios. Podemos até alegrar-nos com os seus êxitos. Porém evitemos nós e eles, toda a propaganda para atrair ao respectivo grupo os fiéis que já pertencem a outra igreja. O nosso primeiro fim não é atrair os indivíduos à Igreja Católica, mas preparar o terreno para realizar um dia a comunhão perfeita destas comunidades com a Igreja Católica. O chamado proselitismo, para ganhar os indivíduos a que passem para o nosso lado, só alcançaria, atrasar por mais tempo e comprometer os esforços duma aproximação cada vez maior. O testemunho fiel da nossa fé, em todo o lugar e em toda a circunstância, pode certamente atrair, alguns membros de outras igrejas que desejem passar às nossas fileiras, porém é evidente que este caminho para a unidade será, só para uma ínfima minoria''[35].

Como se vê, nesta maneira de conceber a evangelização, pretende-se por questão de tática mais que promover com empenho as conversões individuais de cristãos ao catolicismo, esperar, para conseguir uma integração, que se julga mais ampla de toda a comunidade ou de várias comunidades de irmãos separados dentro da unidade desejada por Cristo.

É certo, como o dissemos anteriormente, (art. 4,d), que o ecumenismos foi pensado para realizar a união das comunidades ou das igrejas, e não tanto a conversão dos membros. Porém cremos que uma coisa não se opõe a outra e que há circunstâncias que urgem a conversão dos indivíduos em particular. E esta, é a outra maneira de conceber a evangelização que vem completar a maneira acima exposta.

A Igreja tem por um lado o mandato divino de proclamar a todo o mundo a mensagem íntegra do evangelho, portanto, também com aqueles pontos especificamente católicos, que julgamos pertencer a esta mensagem. Parece que só por razão de tática e para conseguir um bem maior e mais duradouro, seria lícito diferir temporal ou momentaneamente a pregação da mensagem total.

Porém cada indivíduo em particular, tem o dever de investigar a verdade e onde está a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Desde o momento que chegou a esta certeza, deve entrar na verdadeira Igreja e não diferir a sua conversão. Mais ainda, se um cristão tem dúvidas sobre a verdade da própria religião, e crê provável que a religião católica é a única religião verdadeira, imposta ou querida por Deus, este indivíduo tem (objetivamente falando), obrigação de sair da dúvida e averiguar com diligência qual é a religião querida por Deus e abraçá-la, uma vez conseguida a certeza da religião.

Não seria prudente diferirem os indivíduos este estudo e o sair da dúvida, com a esperança de se poderem salvar na própria confissão. Porque esta esperança supõe em primeiro lugar a boa consciência e estar em boa fé na comunidade religiosa, e em caso de dúvida, se se utilizaram os meios convenientes para sair dela. Além disso supõe-se a autêntica fé sobrenatural e a caridade de Deus com a graça santificante. Com efeito, são evidentes os meios que o Catolicismo tem para conseguir esta graça.

Seria igualmente pouco prudente esperar, ''que a Igreja Católica se ponha mais em dia, ou ao alcance dos outros cristãos, e em maior uniformidade com eles'', porque não são de esperar mudanças substanciais na conduta da Igreja Católica.

A ação da graça, seja pelo movimento ecumênico, seja pelas conversões individuais, consiste em levar as comunidades e os indivíduos à verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Uma vez conhecida a meta não é lícito aos indivíduos nem às comunidades diferir a chegada. É o que se deverá fazer cedo ou tarde. Porque pois retardá-lo?

Tratando-se de não cristãos, muito menos se deve diferir a sua evangelização individual com a esperança hipotética e longínqua duma integração das forças cristãs numa unidade completa. A razão é que, além do mandato de evangelizar toda a criatura, a necessidade de assegurar a salvação dos infiéis, com uma autêntica fé sobrenatural que os faça abraçar livremente o destino e o fim a que Deus os chama gratuitamente à sua amizade e filiação. Este destino só se aceita como possível pela fé na palavra de Deus, que é o pressuposto da esperança ou desejo, e da caridade[36].

 

A exposição da doutrina (n°11)


Dizer a verdade em caridade (n°11a)


 

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